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O ponto é o limite

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Se me pedissem para definir a sociedade em uma metáfora, coisa que já seria um tanto quando redundante, eu diria que ela é como um ônibus, daqueles que tenho que pegar todos os dias. Não pelo caminho sempre certo que seguem ou a sua logística aplicada para distribuir certas pessoas em determinados lugares. Muito pelo contrário, pois é naquele ambiente de transição que está a base da vida em grupo.

Por começar na posição dos tripulantes. Há um motorista, que conduz a vida e toma as decisões por todos os outros naquele momento, mas, como avisa a placa, esta acessível somente para assuntos imprescindíveis, mais ou menos como os políticos. Tem também um cobrador, que representa as forças opressoras e de controle das massas, cobrando as passagens e bradando de seu trono privilegiado o “passinho pra frente”. Já os outros são meros passageiros.

A fauna usuária do serviço é o grupo mais interessante de ser observado. Como o perdido, que a cada ponto faz como aquelas crianças para o cobrador ou para o companheiro de banco, pedindo “tá chegando?”. Tem também a evangélica, que é aquela figura atarracada de saia, com um coque tão preso no cabelo que chega a saltar as órbitas dos olhos, que só mesmo com a graça de Deus consegue passar de ponta-a-ponta em um ônibus lotado.

E por falar em lotação, há momentos em que nem o pudor ou uma síndrome de claustrofobia conseguem espaço. O calor humano é denso no sentido mais olfativo da coisa, em que é relativo ao número de braços erguidos e o prazo de validade do desodorante dos mesmos. Ainda, se você não tiver a sorte de ir acomodado em um banco, seu corpo vai roçar a cada curva e parada em sinal, mais ou menos como uma lambada dançada por um epilético.

Para a boa convivência em grupo, há algumas regras que prezam o bem-estar: oferecer o lugar aos mais velhos, gestantes e deficientes; não pagar passagem com notas maiores do que dez reais, para agilizar o troco; e, um dos mais importantes, ser paciente e resistente como uma rocha, para levar bolsadas, cotoveladas, bundadas e outros golpes involuntários.

O tempo que você precisa ficar dentro de um ônibus pode ser muito curioso e até mesmo útil, mesmo que a trilha sonora seja aquele pancadão que leve seu humor ao nocaute. Lá você conhece os mais célebres dramas anônimos, do amigo do amigo da vizinha de fulano, ou aprende aquele plano mirabolante de economizar no orçamento doméstico pegando papel higiênico da faculdade.

Tudo isso são coisas tão interessantes quanto a novela das oito. É só a maioria que não presta muito bem a atenção. Eu não sei até que ponto as pessoas querem chegar. Tudo o que sei é que eu devo saber muito bem até onde vou, para que no caminho eu não interfira no dos outros. Afinal, a vida social não é uma mera viagem nesse caso.

Joel Minusculi
Que pega ônibus todo santo dia

Written by Joel Minusculi

junho 11, 2008 at 1:00 am

Publicado em Crônica, Devaneio, Literatura

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O ponto é o limite

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Se me pedissem para definir a sociedade em uma metáfora, coisa que já seria um tanto quando redundante, eu diria que ela é como um ônibus, daqueles que tenho que pegar todos os dias. Não pelo caminho sempre certo que seguem ou a sua logística aplicada para distribuir certas pessoas em determinados lugares. Muito pelo contrário, pois é naquele ambiente de transição que está a base da vida em grupo.

Por começar na posição dos tripulantes. Há um motorista, que conduz a vida e toma as decisões por todos os outros naquele momento, mas, como avisa a placa, esta acessível somente para assuntos imprescindíveis, mais ou menos como os políticos. Tem também um cobrador, que representa as forças opressoras e de controle das massas, cobrando as passagens e bradando de seu trono privilegiado o “passinho pra frente”. Já os outros são meros passageiros.

A fauna usuária do serviço é o grupo mais interessante de ser observado. Como o perdido, que a cada ponto faz como aquelas crianças para o cobrador ou para o companheiro de banco, pedindo “tá chegando?”. Tem também a evangélica, que é aquela figura atarracada de saia, com um coque tão preso no cabelo que chega a saltar as órbitas dos olhos, que só mesmo com a graça de Deus consegue passar de ponta-a-ponta em um ônibus lotado.

E por falar em lotação, há momentos em que nem o pudor ou uma síndrome de claustrofobia conseguem espaço. O calor humano é denso no sentido mais olfativo da coisa, em que é relativo ao número de braços erguidos e o prazo de validade do desodorante dos mesmos. Ainda, se você não tiver a sorte de ir acomodado em um banco, seu corpo vai roçar a cada curva e parada em sinal, mais ou menos como uma lambada dançada por um epilético.

Para a boa convivência em grupo, há algumas regras que prezam o bem-estar: oferecer o lugar aos mais velhos, gestantes e deficientes; não pagar passagem com notas maiores do que dez reais, para agilizar o troco; e, um dos mais importantes, ser paciente e resistente como uma rocha, para levar bolsadas, cotoveladas, bundadas e outros golpes involuntários.

O tempo que você precisa ficar dentro de um ônibus pode ser muito curioso e até mesmo útil, mesmo que a trilha sonora seja aquele pancadão que leve seu humor ao nocaute. Lá você conhece os mais célebres dramas anônimos, do amigo do amigo da vizinha de fulano, ou aprende aquele plano mirabolante de economizar no orçamento doméstico pegando papel higiênico da faculdade.

Tudo isso são coisas tão interessantes quanto a novela das oito. É só a maioria que não presta muito bem a atenção. Eu não sei até que ponto as pessoas querem chegar. Tudo o que sei é que eu devo saber muito bem até onde vou, para que no caminho eu não interfira no dos outros. Afinal, a vida social não é uma mera viagem nesse caso.

Joel Minusculi
Que pega ônibus todo santo dia

Written by Joel Minusculi

outubro 5, 2007 at 10:48 am

Publicado em Crônica, Literatura

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