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Xou da Xuxa no Twitter

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xuxatwitterEsse texto também foi publicado no twitterportugal

Que o Twitter se tornou um ótimo canal para as celebridades fazerem a manutenção de seus fãs, ninguém duvida. O que as pessoas que vivem na altura do altar da fama não esperavam era o impacto de suas ações no ninho do passarinho azul. A apresentadora brasileira Xuxa Meneghel descobriu isso da pior forma, ao entrar no serviço e, menos de um mês depois, abandoná-lo – por não achar que as pessoas merecem falar com ela ou sua filha.

Tudo começou no dia 3 de agosto, quando a Rainha dos Baixinhos anunciou o começo da aventura. Português impecável, boa aplicação de vocativos e vírgulas. Usou até reticências para continuar o assunto, já que 140 caracteres não foram suficientes para uma única mensagem. As letras alternaram entre maiúsculas e minúsculas, respeitando a gramática.

Até o dia 6 de agosto cada mensagem parecia uma “normal”, como um relato do dia-a-dia. Mas nessa data surgiu a primeira mensagem com o “jeitinho da Xuxa”: tudo escrito em letras maiúsculas, sem acentuação, reticências no lugar de vírgulas e um outro tom na mensagem, mais alegre e descontraído.

Não existe um padrão oficial para se escrever na internet. Tanto que há neologismos e miguxês sendo usados sem nenhuma forma de fiscalização. O que há são convenções, pequenas regras que respeitam o senso comum, para deixar o ambiente da web melhor. Um exemplo, bem recorrente, é que se uma pessoa escrever uma mensagem em caixa alta significa volume alto, grito.

O que aconteceu com Xuxa Meneghel é que seu status de celebridade não foi adequado com a imperfeição vista em seu perfil no Twitter. Muitos de seus seguidores (ou não) começaram a alertá-la sobre sua escrita. A loira, porém, quis ir contra seus mais de 90 mil seguidores. Tentou justificar sua maneira de se comunicar pelo “jeitinho”.

O Twitter proporciona a chamada interação mútua, que Alex Primo, resumidamente, define que acontece na troca de informações entre dois pólos “seus elementos são interdependentes, onde um é afetado, o sistema total se modifica”. Ou seja, tudo o que é colocado no Twitter pode ser desenvolvido de acordo com o julgamento dos receptores – que não têm um padrão definido de resposta – e pode sair do esperado pelo emissor.

Diferente da televisão, em que a resposta para as ações poderia demorar semanas ou serem filtradas por uma assessoria, Xuxa descobriu que as réplicas por Twitter são praticamente em tempo real. Além disso, todas as mensagens, boas ou não, chegavam até ela. Esse contato direto em massa, sem filtros, seguranças ou assessores, pode ter “Xocado” a Xuxa (com o perdão do trocadilho).

Quando Xuxa Meneghel afirmou que iria se adequar ao padrão, surgiu a hipótese de seu perfil ter sido iniciado por um “ghost writer” – detalhe pouco comentado. A letra então baixou, mas o ânimo dos tuiteiros de plantão ainda estava exaltado e vigilante sobre as ações da loira. Até o dia que Sasha, filha da Rainha dos Baixinho, enviou uma mensagem com um erro de português. Mais uma vez, Xuxa justificou, explicando que a filha tinha sido alfabetizada em inglês.

A Rainha dos Baixinhos não é a primeira celebridade que descobriu que há pessoas que podem não gostar dela ou de suas ações. Com esse exemplo, pode-se perceber certa padronização por senso comum no Twitter, em que devemos seguir a linha de idéias recorrentes, além de contabilizar seguidores. Além disso, mostra que as conseqüências de uma tuitada, até mesmo as mais banais, são proporcionalmente relativas ao tamanho da fama do emissor.

Xuxa Meneghel adiciona mais uma polêmica para seu hall de ações que não tem nada com seu “jeitinho”. Ela apagou a mensagem da filha e uma que usou um xingamento contra as retaliações. Seu perfil ainda existe, mas seu espaço no ninho do passarinho azul foi literalmente abandonado.

Joel Minusculi
Que dificilmente segue um famoso

Written by Joel Minusculi

agosto 31, 2009 at 6:32 pm

Publicado em Artigo, Twitter

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Como conseguir seguidores e alienar o público

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Piratasdotwitter

O Twitter no Brasil foi movimentado por mais uma campanha de top hashtag na noite de 29 de junho. Depois do movimento #chupa @aplusk, agora o alvo foi o ex-presidente e atual senador brasileiro José Sarney (DEM-MA). A palavra de ordem #forasarney estava relacionada com os escândalos relacionados ao político. Em mais um movimento coletivo, a hashtag de Sarney alcançou o segundo lugar nos trending topics. Dessa vez, diferente do caso #chupa (manifestação espontânea e popular), o #forasarney foi encabeçado por “celebridades” da mídia brasileira.

Um grupo de “celebridades” decidiu fazer mobilizações pelo Twitter, com a intenção de fazer suas idéias serem redistribuídas (retwittadas) e forçar a entrada de termos nos trending topics. Com isso foi criado o perfil coletivo no Twitter chamado “Os Piratas”, que conta com a participação do ator Bruno Gagliasso, o cantor Junior Lima (da extinta dupla Sandy & Junior), o apresentador do “CQC” Marco Luque, o também apresentador do programa “Pânico” Rodrigo Vesgo, o amigo dele Pedro Tourinho e o VJ da MTV Felipe Solari.

A primeira ação do grupo começou às 22h30 minutos no dia 29 de junho e contou com a adesão de milhares de tuiteiros do Brasil – muitos deles fãs que migraram atrás dos ídolos no mundo online. Além de conseguir colocar o #forasarney em segundo lugar nos trending topics até 1h do dia 30 de junho, as “celebridades” ganharam espaço em sites de fofocas e que acompanham suas vidas.  Além disso, milhares de perfis de pessoas “comuns” mudaram seus avatares para a bandeira “pirata” e replicaram os twittes dos famosos.

O fervor nas quase três horas de movimentação pelo #forasarney foi tão grande, que as “celebridades” brasileiras começaram a apelar entre elas e para as internacionais. Nessa hora, @aplusk foi rogado como um santo em uma decisão de campeonato de futebol. Teve de tudo: gente usando credencial de VJ da MTV, outros fazendo discurso ideológico e até quem apelou para o poder de influência do astro americano. O detalhe foi que @aplusk não se comoveu pelos do movimento e justificou de uma maneira simples: nada disso interessava para ele e quem deveriam se mobilizar eram os brasileiros por conta própria – foi quase como se @aplusk tivesse direcionado um #chupa educado aos @twpiratas. E ainda teve gente que achou o cúmulo alguém de fora do país, que não sabe quem é José Sarney, não ter usado sua influência para divulgar uma hashtag que só diz respeito ao Brasil.

É interessante perceber o poder de alcance dessas “celebridades”, ao ponto de qualquer coisa que escrevem ser replicada no Twitter milhares de vezes. Manipular as hashtags foi encarado como um jogo por aqueles que deveriam usar sua influência para construir redes sociais empenhadas, independente da posição da palavra de ordem. Enquanto isso, milhares de pessoas “comuns” seguiram cegamente os dizeres de seus “ídolos”. Dessa vez o alvo, #forasarney, não tinha muitos motivos para se defender (pois cada vez mais mostra-se culpado). Mas o que será da reputação do conteúdo das redes sociais quando essa brincadeira causar um dano sério?

Joel Minusculi
Que não gosta de gente que quer brincar, mas não sabe como e inventa as próprias regras

Written by Joel Minusculi

junho 30, 2009 at 6:07 pm

Publicado em Artigo, Opinião, Twitter

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#chupa: o dia que Ashton Kutcher aprendeu português

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chupa

Imagine o ator Ashton Kutcher sentado em seu sofá, todo esparramado, vendo o jogo de futebol entre Brasil e Estados Unidos, na final da Copa das Confederações 2009. A mão esquerda dele abastece a boca de pipoca, que a Demi Moore acabou de trazer quentinha (ela vestia só uma blusinha branca e aquela calcinha da foto). Na outra mão, Kutcher empunha seu iPhone com acesso a web e narra a partida pelo Twitter com comentários provocativos: “If the USA wins the Fifa Confederations Cup we officially get to call the game Soccer with out getting any sh*t 4 atleast 1 year”.

Como toda celebridade que se preze, Kutcher tem milhões de fãs (ou melhor, 2.481.855 seguidores). Entre todo mundo que acompanha o famoso ator, há também torcedores da seleção canarinho, brasileiros que vestem a camisa do Brasil (principalmente quando está em alguma final, mesmo se a competição não é tão prestigiada). Não bastassem os dois gols que o Brasil tomava no primeiro tempo dos EUA, a torcida brasileira recebia em sua timeline do Twitter o grito de Kutcher em forma de caracteres, que na situação era mais chato que 2.481.545 de vuvuzelas: “Goaaaaaaaaaaaaaaaaaaaalllllllll!!!!!! from EUA!!!!!”. Mas como diz a propaganda, o time e alguns seguidores do Kutcher são brasileiros e não desistem nunca.

Nem um minuto do segundo tempo, Luís Fabiano mete a bola no fundo do gol. Kutcher fica em silêncio virtual. Milhares de tuiteiros (pessoas que usam o Twitter) estaria tocando vuvuzelas se tivessem uma, mas acabaram exaltando a esperança em até 140 caracteres: “ENTROU!”, exalta uma torcedora com direito a caixa alta e ponto de exclamação para dar ênfase, se referindo ao gol oficial (já que um primeiro o juíz não considerou). Kutcher sentiu o primeiro passo da virada em uma twittada tímida, com caracteres em caixa baixa e sem sinais: “oh boy”. Poucos minutos depois, novamente Luís Fabiano marca e deixa tudo igual: Brasil 2 X 2 EUA. O famoso ator americano, sob o pseudônimo virtual @aplusk, lamenta: “check that 2-2 tie Daaaaaaaaaaaaaaaamn”. Os brasileiros do mundo online e do offline sentem a chama da esperança arder e gritam a primeira coisa que vem na boca.

Tudo parecia bem, cada um torcendo e se remoendo em seu canto. Mas os brasileiros quiseram botar para fora a angústia e a desolação que sentiram durante o primeiro tempo. E, além disso, quiseram fazer os Estados Unidos engolir na marra tudo isso. Assim, alguém no Twitter, não se sabe quem (já que eram milhares ao mesmo tempo), intimou: “Chupa, EUA!”, como um imperativo perfeito contra a nação que acha que o mundo todo é seu império. Eis que uma “celebridade” brasileira, sob a alcunha de @AlineLii, sentencia em altas e extendidas letras: “CHUUUUUUUUUUUUUPAAAAAAAAA!!!!”. Logo depois, ainda ela, como uma vendeta ao famoso ator americano, direciona sua ira de torcedora: “chupa @aplusk! hahahaha”.

Entre as primeiras provocações e o final do jogo ainda houve o terceiro gol do Brasil, marcado por Lúcio. Apesar do salvador brasileiro (com direito a uma camisa com “I love Jesus”), muitas das palavras de comemoração no Twitter queimariam os tímpanos dos anjos. Teve até alguém que comentou: “Mano, nunca vi tanto palavrão no twitter hahahaha”. Quando o juíz apitou e apontou o centro do campo e os Estados Unidos perderam a partida, Ashton Kutcher tentou a redenção: “Ok we will call it futbol. Son of a Motherless Goat”. Em vão, pois tudo o que @aplusk conseguiu foi ser o foco dos torcedores para extravasar o grito de vitória.

Em menos de cinco minutos após a partida de futebol, antes mesmo de Lúcio erguer a taça para o Brasil como campeões da Copa das Confederações 2009, a timeline de @aplusk foi invadida por milhares de mensagens parecidas com a de @AlineLii. Algumas tímidas, como “chupa, @aplusk”. Outras mais raivosas, ao estilo “CHUUUUUUPAAAAAA, @aplusk EUA e Obama” (sim, sobrou até para o presidente mais cool). Teve até o modelo internacional, no “suck, @aplusk“. Esse último digno de nota do famoso ator americano: “I think that Brazilians favorite american Phrase is “Suck it” hahahaha. Congrats on a great comback”. Porém, assim como os brasileiros honram a camisa (quando ganham alguma coisa), os torcedores e seguidores de Ashton Kutcher resolveram honrar seu idioma que veio das terras lusitanas.

Com tudo isso, os cinco caracteres de chupa estavam na ponta dos dedos de milhares de pessoas, que estavam voltados para um Ashton Kutcher sem mais do que se vangloriar. Mesmo assim, @aplusk não se dava por vencido: “Ok Brazil wins this time but let it be known… we are coming and we will compete.” (em uma referência ao maior torneio de futebol). Para quê? Milhares de fãs entenderam isso como uma provocação e responderam em massa e coro: “CHUPA, @aplusk!”. Kutsher levou, ou melhor, chupou o novo termo na esportiva para seu vocabulário: “Ok my new favorite work is “Chupa” Roflmao”. Em uma nova mensagem, o famoso ator americano tentou (quem sabe com o primeiro tradutor barato que encontrou na internet) responder à altura a torcida brasileira: “Grande jogo, veremos que no Campeonato do Mundo! mais uma coisa …. chupa-lo hahaha”.

Ashton Kutcher não tinha noção do que tinha feito. Em três horas, entre o final do jogo e o final da redação deste texto, foram mais de 4000 “chupas” e seus derivados direcionados para @aplusk. Fora isso, mais de 8000 “chupa”, “#chupa” e “CHUPA” reunidos nos bancos de dados do Twitter. Como o sistema de microblog organiza os termos (palavras) mais populares em trending topics (tópicos tendência), o termo #Chupa alcançou o topo dessa listagem em apenas duas horas. Tudo graças aos brasileiros que se uniram em ira contra @aplusk. Isso levou os twitters dos Estados Unidos a improvisar um breve dicionário, como o que @aplusk twittou: “chupa = suck it HAHAHA”.

Como o mundo dos caracteres do Twitter é tão volátil como a paixão dos brasileiros pela seleção, o termo #Chupa desapareceu de uma hora para outra dos trending topics. Assim como ele surgiu, ninguém soube explicar o motivo dele ter desaparecido. Especulou-se censura, erro de sistema, um favor que o @aplusk cobrou de amigo que administram o Twitter… O fato, que durou algumas horas, marcou milhares de usuários do Twitter nesse 28 de Junho de 2008: o dia que o Brasil se tornou campeão da Copa das Confederações de 2009 e o ator Ashton Kutcher aprendeu a chupar o vocabulário da língua portuguesa. Mas o que realmente importa foi a demonstração de poder que uma sociedade (mesmo que online) teve para pôr o #chupa no trending topics. Como diria @flaviofachel: “Já pensou se conseguíssemos repetir isso em outras coisas?”.

Joel Minusculi
Que pretende montar uma vertente de antropologia virtual

Written by Joel Minusculi

junho 29, 2009 at 11:31 am