REFÚGIO

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#chupa: o dia que Ashton Kutcher aprendeu português

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chupa

Imagine o ator Ashton Kutcher sentado em seu sofá, todo esparramado, vendo o jogo de futebol entre Brasil e Estados Unidos, na final da Copa das Confederações 2009. A mão esquerda dele abastece a boca de pipoca, que a Demi Moore acabou de trazer quentinha (ela vestia só uma blusinha branca e aquela calcinha da foto). Na outra mão, Kutcher empunha seu iPhone com acesso a web e narra a partida pelo Twitter com comentários provocativos: “If the USA wins the Fifa Confederations Cup we officially get to call the game Soccer with out getting any sh*t 4 atleast 1 year”.

Como toda celebridade que se preze, Kutcher tem milhões de fãs (ou melhor, 2.481.855 seguidores). Entre todo mundo que acompanha o famoso ator, há também torcedores da seleção canarinho, brasileiros que vestem a camisa do Brasil (principalmente quando está em alguma final, mesmo se a competição não é tão prestigiada). Não bastassem os dois gols que o Brasil tomava no primeiro tempo dos EUA, a torcida brasileira recebia em sua timeline do Twitter o grito de Kutcher em forma de caracteres, que na situação era mais chato que 2.481.545 de vuvuzelas: “Goaaaaaaaaaaaaaaaaaaaalllllllll!!!!!! from EUA!!!!!”. Mas como diz a propaganda, o time e alguns seguidores do Kutcher são brasileiros e não desistem nunca.

Nem um minuto do segundo tempo, Luís Fabiano mete a bola no fundo do gol. Kutcher fica em silêncio virtual. Milhares de tuiteiros (pessoas que usam o Twitter) estaria tocando vuvuzelas se tivessem uma, mas acabaram exaltando a esperança em até 140 caracteres: “ENTROU!”, exalta uma torcedora com direito a caixa alta e ponto de exclamação para dar ênfase, se referindo ao gol oficial (já que um primeiro o juíz não considerou). Kutcher sentiu o primeiro passo da virada em uma twittada tímida, com caracteres em caixa baixa e sem sinais: “oh boy”. Poucos minutos depois, novamente Luís Fabiano marca e deixa tudo igual: Brasil 2 X 2 EUA. O famoso ator americano, sob o pseudônimo virtual @aplusk, lamenta: “check that 2-2 tie Daaaaaaaaaaaaaaaamn”. Os brasileiros do mundo online e do offline sentem a chama da esperança arder e gritam a primeira coisa que vem na boca.

Tudo parecia bem, cada um torcendo e se remoendo em seu canto. Mas os brasileiros quiseram botar para fora a angústia e a desolação que sentiram durante o primeiro tempo. E, além disso, quiseram fazer os Estados Unidos engolir na marra tudo isso. Assim, alguém no Twitter, não se sabe quem (já que eram milhares ao mesmo tempo), intimou: “Chupa, EUA!”, como um imperativo perfeito contra a nação que acha que o mundo todo é seu império. Eis que uma “celebridade” brasileira, sob a alcunha de @AlineLii, sentencia em altas e extendidas letras: “CHUUUUUUUUUUUUUPAAAAAAAAA!!!!”. Logo depois, ainda ela, como uma vendeta ao famoso ator americano, direciona sua ira de torcedora: “chupa @aplusk! hahahaha”.

Entre as primeiras provocações e o final do jogo ainda houve o terceiro gol do Brasil, marcado por Lúcio. Apesar do salvador brasileiro (com direito a uma camisa com “I love Jesus”), muitas das palavras de comemoração no Twitter queimariam os tímpanos dos anjos. Teve até alguém que comentou: “Mano, nunca vi tanto palavrão no twitter hahahaha”. Quando o juíz apitou e apontou o centro do campo e os Estados Unidos perderam a partida, Ashton Kutcher tentou a redenção: “Ok we will call it futbol. Son of a Motherless Goat”. Em vão, pois tudo o que @aplusk conseguiu foi ser o foco dos torcedores para extravasar o grito de vitória.

Em menos de cinco minutos após a partida de futebol, antes mesmo de Lúcio erguer a taça para o Brasil como campeões da Copa das Confederações 2009, a timeline de @aplusk foi invadida por milhares de mensagens parecidas com a de @AlineLii. Algumas tímidas, como “chupa, @aplusk”. Outras mais raivosas, ao estilo “CHUUUUUUPAAAAAA, @aplusk EUA e Obama” (sim, sobrou até para o presidente mais cool). Teve até o modelo internacional, no “suck, @aplusk“. Esse último digno de nota do famoso ator americano: “I think that Brazilians favorite american Phrase is “Suck it” hahahaha. Congrats on a great comback”. Porém, assim como os brasileiros honram a camisa (quando ganham alguma coisa), os torcedores e seguidores de Ashton Kutcher resolveram honrar seu idioma que veio das terras lusitanas.

Com tudo isso, os cinco caracteres de chupa estavam na ponta dos dedos de milhares de pessoas, que estavam voltados para um Ashton Kutcher sem mais do que se vangloriar. Mesmo assim, @aplusk não se dava por vencido: “Ok Brazil wins this time but let it be known… we are coming and we will compete.” (em uma referência ao maior torneio de futebol). Para quê? Milhares de fãs entenderam isso como uma provocação e responderam em massa e coro: “CHUPA, @aplusk!”. Kutsher levou, ou melhor, chupou o novo termo na esportiva para seu vocabulário: “Ok my new favorite work is “Chupa” Roflmao”. Em uma nova mensagem, o famoso ator americano tentou (quem sabe com o primeiro tradutor barato que encontrou na internet) responder à altura a torcida brasileira: “Grande jogo, veremos que no Campeonato do Mundo! mais uma coisa …. chupa-lo hahaha”.

Ashton Kutcher não tinha noção do que tinha feito. Em três horas, entre o final do jogo e o final da redação deste texto, foram mais de 4000 “chupas” e seus derivados direcionados para @aplusk. Fora isso, mais de 8000 “chupa”, “#chupa” e “CHUPA” reunidos nos bancos de dados do Twitter. Como o sistema de microblog organiza os termos (palavras) mais populares em trending topics (tópicos tendência), o termo #Chupa alcançou o topo dessa listagem em apenas duas horas. Tudo graças aos brasileiros que se uniram em ira contra @aplusk. Isso levou os twitters dos Estados Unidos a improvisar um breve dicionário, como o que @aplusk twittou: “chupa = suck it HAHAHA”.

Como o mundo dos caracteres do Twitter é tão volátil como a paixão dos brasileiros pela seleção, o termo #Chupa desapareceu de uma hora para outra dos trending topics. Assim como ele surgiu, ninguém soube explicar o motivo dele ter desaparecido. Especulou-se censura, erro de sistema, um favor que o @aplusk cobrou de amigo que administram o Twitter… O fato, que durou algumas horas, marcou milhares de usuários do Twitter nesse 28 de Junho de 2008: o dia que o Brasil se tornou campeão da Copa das Confederações de 2009 e o ator Ashton Kutcher aprendeu a chupar o vocabulário da língua portuguesa. Mas o que realmente importa foi a demonstração de poder que uma sociedade (mesmo que online) teve para pôr o #chupa no trending topics. Como diria @flaviofachel: “Já pensou se conseguíssemos repetir isso em outras coisas?”.

Joel Minusculi
Que pretende montar uma vertente de antropologia virtual

Written by Joel Minusculi

junho 29, 2009 às 11:31 am

3 Respostas

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  1. Este é um fato verdadeiramente controverso. Vou linkar no blog!

  2. Muito bom o texto. Na semana tentamos fazer o mesmo com o termo #forasarney. Em vão. Talvez um #chupasarney funcione…

    Glaydson

    junho 29, 2009 at 7:44 pm

  3. É participei ativamente do movimento; não foi a queda do muro de Berlim, mas teve a sua graça. Ah, a pós-modernidade…

    Taísa

    junho 30, 2009 at 12:56 am


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