REFÚGIO

comunicação, tecnologia e outros devaneios

A prática maldita

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Artigo retirado da Playboy Espanhola de Dezembro de 2007.
Texto: Alicia Galotti, autora da série “Kamasutra” de Martinez Roca.
Tradução: Joel Minusculi

Quando está tampada pela roupa é um ícone sexual sagrado, um centro de veneração para ambos os sexos. A sentença “que bela bunda!” cruza o ar e encaixa certeira em nádegas durinhas, proeminentes, bem torneadas e melhor delineadas pela calça justa ou a saia do tamanho certo que as cobrem. São um objeto de desejo que instigam muitas fantasias.

Sem dúvida, aproveitar os prazeres dessa região plenamente não é tão fácil como crêem alguns. As palavras são realidade virtual. Na intimidade é outra coisa. Quando ele insinua a ela a possibilidade de ter sexo anal, a primeira reação, salvo em exceções raras, é se pôr na defensiva. Já diz de cara que “acabou a diversão e começa o terror”. Este repúdio está tão incrustado que é quase uma marca genética: têm medo, se tencionam, se fecham em si mesmas. “Eu nunca provei, nem o quero provar… dói”, é a justificativa automática. Se o parceiro insiste, com o tempo acaba cedendo. Não fica convencida, segue com os mesmos temores, porém aceita para evitar discussões com seu parceiro; para oferecer um prêmio a sua insistência; para não acabar com a relação… Quem sabe quantas desculpas mais. O certo é que cede. Porém não desfruta. Vai para a cama como um cordeiro ao matadouro. O resultado é um sacrifício que excluir qualquer possibilidade de sentir prazer e desfrutar do momento. É quase tão inútil quanto fingir um orgasmo.

Sexo alternativo

Esta resistência não é casual. Séculos e séculos repetindo uma mensagem, dando-a por válida sem que exista um discurso oficial e certo que o contradiga, criam um sólido prejuízo difícil de romper. As religiões, a católica com maior poder de influência, passaram todos esses anos atacando qualquer relação sexual que não fosse para a reprodução – essas classificadas como pecado. Entre estas foram classificadas as chamadas “relações contra a natureza”, como denominam o sexo anal entre heterossexuais. “Sodomia”, termo bíblico com maior carga de culpa e castigo, o aplicam as mesmas relações, porém entre homossexuais. O pecado durante muito tempo também foi um crime. Não só se ia ao inferno por praticá-lo, quanto que também poderia ir para a cadeia, ser torturado, executado ou outras gentilezas parecidas. As coisas com o tempo não amenizaram: o Papa anterior, João Paulo II, declarou que o inferno não existia; porém o atual, Bento XVI, voltou a proclamar o andar de baixo, como avisando para um castigo.

Centro único de prazer

As mentes não podem estar preparadas para o prazer, quando os medos ainda afetam o corpo. Quem poderia imaginar que o anus é um centro nervoso único. Que suas terminações nervosas superam a da vagina. Que o roçar ou penetrar pode despertar um prazer inigualável. Que existem lubrificantes especiais e jogos eróticos que propiciam dilatações ideais para a penetração sem dor. A maioria das mulheres não se perguntam essas coisas, quando os tabus socioculturais atuam como barreiras impenetráveis. As mentiras e os mitos construídos com tanto esmero e tempo levantaram um muro de medo tão eficaz que poucas se atrevem a desafiar essa forma de prazer.

Dizer essas coisas, nesse começo de terceiro milênio, não deixa de surpreender. É 2008 e parece que seguimos os mandamentos de uma Inquisição. Sem dúvida nem tudo é proibido diretamente, também existem outras formas eficientes de dissimular: por exemplo, tirar a atenção de temas importantes. Hoje em dia o debate sexual está aberto: se discute sobre o multiorgasmo; sobre a existência da ejaculação feminina; sobre como manter uma qualidade de ereção durante horas e horas… Quilos de informação e de discussão em fóruns sobre questões mitológicas. E para quê? Queremos escrever um tratado, porém nem sabemos juntar sílabas. O sexo anal é como a profundeza do oceano, ainda por ser descoberto – e, sem dúvida, provoca maravilhosas sensações de prazer.

Silêncio nos anais da sociedade

Esse fervor desenfreado para acumular dados, estatísticas e informações sobre a vida sexual das pessoas desaparece ao falar de sexo anal. Não existem pesquisas ou informações oficiais, nem sequer privadas, que passem de um parágrafo de cinco linhas sobre o tema dirigido a heterossexuais. Tanta proclamação de liberdade e avanço da sexualidade para cair logo nas “práticas malditas”. E o sexo anal é uma delas: assunto tão incômodo que se ignora.

Estas inibições sociais levadas ao individual não reconhecem gênero, prejudicam a ambos dos sexos por igual. Porque os homens heterossexuais tampouco desfrutam de seu ânus: se fecham por sua masculinidade.

Quando durante um abraço apaixonado, ela desliza o dedo travesso pelas nádegas duras dele e logo busca a entrada do ânus – isso geralmente causa um clima tenso. Esse jogo ingênuo convertido em carícia sexual pode acabar com o clima quando ele, instintivamente, toma uma posição arredia com a situação. É disparado o medo irracional e primitivo. Salta do inconsciente e se apodera da razão para ofuscá-la. Porém não é só o temor físico, sobre tudo é social. “Eu sou heterossexual convencido e não posso desfrutar pelo ânus”, ordena sua consciência. E lhe salta a dúvida mais íntima: “E se eu gostar e quiser repetir, serei homossexual?”. Se a mente tivesse cara poderia se ver uma máscara de terror. Tamanha situação não é caricatura, é uma realidade íntima que muitos a negam. Pensam que a mantêm salvo em seu interior. Preferem evitar o prazer, que contar a verdade de suas sensações e sentimentos. Que homem se atreve a dizer em alto e bom tom que o penetraram sem ser gay? Que mulher admite com naturalidade que permite essa outra opção?

O importante é que homens e mulheres heterossexuais saibam desfrutar de seu corpo como um todo e, em cada encontro sexual, descobrirem um motivo para o prazer.

Castigos exemplares

Em alguns países o sexo anal não é uma opção de desfrute, mas um crime perseguido pela lei. Apesar de ser permitido entre pessoas de maior idade e praticar-se na mais absoluta privacidade, sua proibição é total.

Nos Estados Unidos as relações anais são crime em 14 estados e em Porto Rico (Estado Livre Associado). A “cruzada” é voltada contra os homossexuais, mas essa moral acaba com todos. Qualquer casal que em sua privacidade pratique o sexo anal, seja denunciado e pego em flagrante pode ser condenado a 15 anos de prisão em Louisiana, a 10 no Mississippi ou Porto Rico e a 5 anos na Carolina do Sul. Outros são mais “benévolos”: no Texas pode se livrar da pena por 200 dólares; e em Utah os seis meses de prisão podem ser trocados por 1000 dólares.

Semelhante caça de bruxas medievais parece “civilizada” se comparada com a legislação de países como Arábia Saudita, Irã, Nigéria, Emirados Árabes ou Sudão, entre outros, onde para o sexo anal está prevista a pena de morte. Mas ainda se estabelecem condições especiais com as relações extraconjugais. Em alguns países muçulmanos, como Afeganistão, a lei Sharia, um rígido código moral baseado no Alcorão, impõe severos castigos que podem chegar aos açoites ou ao apedrejamento, especialmente em mulheres.

Sexo contraceptivo

As escondidas, com vergonha, sem querer, com dor, por não dizer que não ou por fazer demais, o sexo anal sempre existiu.

É uma prática historicamente perseguida pelos homens como um troféu. Nos anos 60, a revolução sexual adotou o sexo anal como uma técnica contraceptiva. Quem não podia comprar “a pílula” e não gostavam dos preservativos tinham um meio muito mais seguro e prazeroso para evitar a gravidez: a chamada “porta traseira”, eufemismo machista ouvido na época. Sem dúvida, esse breve furor contraceptivo do sexo anal pode ser considerado uma busca de prazer. Elas, na maioria dos casos, aceitavam como uma forma de manter seus homens, aos quais não concediam o sexo vaginal por medo de engravidar e, inclusive, em ocasiões para manter a virgindade. Este jogo se estendeu só no âmbito masculino, onde os homens pareciam os donos exclusivos desse desejo e as mulheres da repressão.

Written by Joel Minusculi

janeiro 26, 2008 às 10:37 am

Publicado em Artigo, Comportamento

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Uma resposta

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  1. Gostei muito do blog e, claro, deste texto aqui. O assunto (bunda) me fez lembrar da crônica AH, A BUNDA!, que li no blog LOROTA BOA, do jornalista e poeta Antonio Rezende, o cara que me indicou o PEGA NO MEU BLOG.

    Ah. O texto a que me refiro está neste endereço:
    http://lorotaboa.zip.net/arch2007-01-28_2007-02-03.html

    Tom Damatta

    janeiro 29, 2008 at 5:29 pm


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