REFÚGIO

comunicação, tecnologia e outros devaneios

Evolução de telespectador para usuário

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O site oficial da TV Digital (DTV) no Brasil fez sua contagem regressiva para a primeira transmissão do formato, enquanto muitas pessoas ainda tentam entender a revolução que o sistema proporcionará aos telespectadores. O conceito digital está na moda, principalmente pelas muitas iniciativas que surgem para inserir a sociedade neste novo mundo. Mas será que a população brasileira está pronta para essa nova forma de ver televisão?

No Brasil, 87,7% das residências possuem aparelhos de TV. A televisão é a principal fonte de informação e diversão de milhões de brasileiros. Desde a sua implantação há mais de 50 anos, ela foi utilizada como um instrumento para propagar mensagens para as massas. Tanto que os primeiros aparelhos eram subsidiados pelo governo. Além disso, o sinal de televisão e uma concessão pública, que pode ser explorada comercialmente, mas, segundo a lei, tem que oferecer qualidade à população.

O tempo trouxe desenvolvimento à tecnologia dos aparelhos de TV e à forma de fazer a programação. As cores revolucionaram os televisores, quando o assunto foi a maior aproximação com a realidade. De lá para cá, surgiu uma série de aparatos tecnológicos que transformaram a recepção dos programas televisivos nos lares: aparelhos de tela plana, de plasma e LCD e, além da parte física, a forma de recepção de sinal também teve avanços, indo das antenas internas e das velhas “espinhas de peixe” até o sistema via satélite. Mas é na nova tecnologia digital que está o maior avanço, que é, além da melhor qualidade de sinal, o da interatividade.

A história da televisão digital começa nos anos 1970, quando a direção da rede pública de TV do Japão, Nippon Hoso Kyokai (NHK), juntamente com um consórcio de 100 estações comerciais, deram carta branca aos cientistas do NHK Science & Technical Research Laboratories para desenvolver uma TV de alta definição (que seria chamada de HDTV). No Brasil, o Governo decidiu realizar uma pesquisa para ter sua própria tecnologia para a TV digital, com o objetivo de escolher o padrão mais adequado à nossa realidade.

O sinal analógico ficou obsoleto diante da capacidade de transmissão de dados do formato digital. Para resumir os muitos detalhes técnicos que definem as diferenças entre o sinal analógico e o digital, o novo padrão tem a capacidade quadruplicada no envio de informações, além de ter um sinal contínuo, ou seja, maior qualidade na imagem, melhor do que a do DVD – esse último tópico somente será aproveitado plenamente em aparelhos com suporte para alta definição e som.

A questão é que o analógico, mesmo com o mínimo de sinal, ainda mantém uma imagem distorcida e com ruídos, aquela imagem com fantasma, que muitas vezes deixa os personagens irreconhecíveis. O digital a partir do momento em que o sinal é fraco, fica impossibilitada a recepção nos aparelhos. Na Wikipedia, há uma lista das Inovações Técnicas e Tecnológicas do sistema digital de TV.

O Gerente de Planejamento de Soluções da Fundação Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomuncações, Giovanni Moura de Holanda, apresenta em seu texto “Os desafios da TV Digital no Brasil: Interatividade e Inclusão”, idéias que questionam a implantação do sistema. Segundo ele, cerca de 80% dos brasileiros podem ser considerados digitalmente excluídos. Estes fazem parte da vertente do Analfabetismo Tecnológico, que, assim como o analfabetismo tradicional, impossibilita o contato dessas pessoas com o mundo através de uma plataforma – no caso, através dos diversos aparelhos e sistemas e informação. Essa relação entre pessoas e aparelhos chama-se interatividade.

A interatividade é a grande marca do sistema digital de televisão. Muito mais do que permitir comprar coisas sem usar o telefone e votar em pesquisas, vai alterar também a forma de fazer TV, pois a relação entre emissor e receptor tende a se tornar recíproca. O usuário terá participação significativa na construção do conhecimento, pois a programação será vista de acordo com o gosto de cada um.

É nessa absorção de uma nova linguagem televisiva que está a questão principal da aceitação do serviço. O telespectador passa a ser um usuário, em que a interatividade junto com as novas formas de ação e relação com a informação rege a interpretação do mundo. Porém, as campanhas vistas para a população em geral não desmistificam a questão de como lidar com o novo sistema.

Mesmo o celular, considerado o aparelho mais bem sucedido da história, ainda guarda muitos segredos de funcionalidade aos seus usuários. Poucas pessoas aproveitam todos os recursos disponíveis, ou por falta de necessidade ou por inaptidão. As projeções de futuro mostram uma sociedade munida de smartphones e iPhones que até mesmo fazem ligações. O detalhe está em quantas pessoas vão mesmo aproveitar o que têm em mãos.

A televisão digital pode chegar à mesma situação dos celulares. Seria como se as pessoas tivessem um carro possante e potente na garagem, mas só ficassem admirando o belo design. A revolução digital proposta por governos e responsáveis pelo projeto deve ter, além de iniciativas de inclusão e o custeio da parte física, projetos que contemplem a educação para essa nova forma de ver uma conhecida mídia.

Dúvidas como a relação entre custos e funcionalidades, além do maior entendimento das produtoras de informações sobre os futuros usuários, ainda rondam os círculos de discussão da televisão digital no Brasil. Por enquanto, a única certeza é que o marco dessa revolução acontecerá no dia 2 de dezembro desse ano, com a primeira transmissão para o estado de São Paulo.

Joel Minusculi
Que escreveu este texto para o site do Monitor de Mídia e achou conveniente replicar por aqui para o maior conhecimento geral da causa.

Written by Joel Minusculi

dezembro 2, 2007 às 3:51 pm

Publicado em Artigo, Tecnologia, Televisão

2 Respostas

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  1. É o começo do começo. Um passinho pequeno, mas que será importante no futuro. Hoje, não tem utilidade nenhuma. Mas um dia terá.

    Fábio Ricardo

    dezembro 3, 2007 at 2:43 pm

  2. “Cerca de 80% dos brasileiros podem ser considerados digitalmente excluídos”, é um número alto ein?

    Mas toda a evolução (e revolução) tecnológica é bem-vinda. A gente já sabia que grande parte da população não vai saber usar, né?
    Aliás, muita gente só ficou sabendo dessa tal de digital agora e não tem a mínima idéia do que seja isso.

    Muito bom e esclarecedor o texto Joel!

    Marina F.

    dezembro 3, 2007 at 11:55 pm


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