REFÚGIO

comunicação, tecnologia e outros devaneios

Para entrar e não cair na rede

with 3 comments

Por Joel Minusculi para o Monitor de Mídia.

 A professora entra na sala de aula, abre seu material e inicia a aula. Os alunos já estão em suas carteiras, com seus respectivos laptops e conectados a uma rede wireless. A aula é sobre geografia e sobre as divisões continentais. Os alunos prontamente baixam e instalam o Google Earth. A professora dá algumas instruções sobre o uso do programa, através do uso de latitude, longitude e noções de pontos cardeais. O mundo está bem na frente dos olhos de todos.

A situação acima é o ideal que as iniciativas de inclusão digital buscam principalmente com crianças em idade escolar. Um dos projetos mais conhecidos nesse sentido é o One laptop per children – OLPC (Um laptop por criança). A distribuição acontece através da venda do equipamento básico para os países participantes, para serem distribuídos através do ministério da educação. Porém, os resultados obtidos com a ação não são satisfatórios e fogem do caráter pedagógico esperado.

Um projeto para várias realidades

Nos países em que o projeto está em ação, que vai dos Estados Unidos a Nigéria, muitos alunos usam o equipamento recebido para colar em provas, fazer download de pornografia, se distrair em chats ou páginas de relacionamento e, até mesmo, invadirem sites. O que foi criado para preparar as novas gerações para um admirável mundo novo tecnológico gera várias discussões sobre a legitimidade do projeto e a dinâmica adotada para sua aplicação.

É um projeto de educação, não um projeto de laptop, declara o fundador do OLPC, Nicholas Negroponte no site da iniciativa. Lá, é possível encontrar também as especificações técnicas do hardware e software utilizados nos modelos distribuídos. No mesmo endereço ainda há dados do progresso e, em conjunto, um wiki dedicada ao assunto. Dentro do wiki há uma espécie de serviço de clipagem de notícias relacionadas ao projeto. Porém, não há matérias relacionadas com o não progresso da idéia.

Na Liverpool High School dos Estados Unidos, o presidente do conselho escolar, Mark Lawson, afirma que “depois de sete anos, não há literalmente nenhuma evidência de que o programa teve algum impacto no aprendizado dos estudantes – nenhuma” – em matéria publicada no portal G1, em 06/05/2007. Assim como a Índia cogitou descartar sua participação no projeto OLPC, por classificar os equipamentos com “ferramentas fantasiosas”, porém, ainda está no programa – em matéria publicada no IDG Now! em 28 de julho de 2006.

O governo brasileiro estuda o OLPC, que aqui ficou conhecido como o “laptop de US$ 100”, desde 2005. Entre os fatores que ainda impedem o início da distribuição é a discussão burocrática da produção. Um dos fatos mais intrigantes nesse sentido foi que a Intel – maior produtora de chips do mundo -, disputava com organizações, como a OLPC, o fornecimento de laptops para os países. Agora, depois de um acordo, a Intel firmou parceria com a OLPC na produção dos equipamentos.

Vários outros aspectos técnicos são considerados para a implantação do OLPC. Porém, não há iniciativas relativas à capacitação de educadores para lecionar com os aparelhos ou na preparação dos alunos para o vislumbre de possibilidades da internet.

Educação deve ir além da técnica

Os laptops com acesso à internet não são meros instrumentos no ensino, como as calculadoras. Eles abrem uma janela para um mundo em que os usuários podem mergulhar fundo nas possibilidades através dos links. As informações seguem um fluxo acelerado e que atingem, sem distinção, quem estiver na frente da tela. Com isso, há o encaminhamento dos usuários para os mais variados destinos.

A capacitação técnica e uma série de didáticas seriam os primeiros passos para a inserção no novo mundo virtual. Entre as estratégias, seria interessante a aplicação de atividades que direcionem o aluno dentro de uma lógica de aprendizado, para então obter os resultados. Porém, nenhuma medida é mais eficaz do que o acompanhamento constante no desenvolvimento das crianças no mundo virtual – como em qualquer outro aspecto de suas vidas. A preocupação com o ensino como um todo, não só com a parte tecnológica e de suporte, traria os verdadeiros resultados esperados: a integração dos contemplados do projeto OLPC com a web e o conseqüente desenvolvimento pessoal no mundo informatizado.

É muito fácil usar um serviço de busca, como o Google, digitar a dúvida, ser prontamente atendido e pensar que a primeira resposta que encontrar é suficiente. Como explica o professor do Instituto de Matemática e Estatísticas da Universidade de São Paulo (IME-USP), Valdemar Setzer, “O computador oferece uma educação mecanizada que pode ser prejudicial à formação dos alunos”. Ou seja, ainda são pessoas que apertam os botões e essas, além de tudo, devem saber pensar como fazer isso da maneira mais construtiva possível.

Um ditado popular serve de metáfora e lição de moral para os resultados inesperados do projeto: “Não basta dar o peixe, é preciso ensinar a pescar”. Os problemas evidenciados mostram que a tecnologia é usada como uma solução imediatista, como tantas outras de inclusão social e atendimento de necessidades. Sem o devido acompanhamento por parte dos responsáveis e aplicadores de ações, qualquer projeto corre o risco de não acontecer como o esperado.

Para ver mais:

One laptop per Child

http://www.laptop.org/

Site oficial do projeto de inclusão digital para crianças.

Classmate PC

http://www.classmatepc.com/

Outro projeto de inclusão digital para crianças em idade escolar.

Considerações sobre o projeto “Um Laptop por Criança”

http://www.ime.usp.br/~vwsetzer/um-laptop-por-crianca.html

Relatório escrito professor do Instituto de Matemática e Estatísticas da Universidade de São Paulo (IME-USP), Valdemar W. Setzer com críticas ao projeto OLPC.

Laptops não servem para a inclusão digital

http://idgnow.uol.com.br/internet/2007/06/19/idgnoticia.2007-06-19.9091114767/

Entrevista com o vice-presidente executivo e administrador geral do grupo de marketing e vendas da Intel, sobre os projetos de inclusão digital.

OLPCitizen – Um Laptop Por Cidadão

http://olpcitizen.blogspot.com/

Blog que reúne todas as notícias relacionadas a projetos de inclusão digital e democracia cibernática, mantido pelo jornalista José Antonio Meira da Rocha.

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Written by Joel Minusculi

outubro 8, 2007 às 10:10 pm

Publicado em Artigo, Internet, Projeto

3 Respostas

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  1. A educação no Brasil e no mundo precisa ser revista. Mentes precisam ser abertas ao novo. Modelos de ensino-aprendizagem inovadores devem ser apresentados e discutidos.

    A Tecnologia da Informação e da Comunicação deve ser alidada da Educação e não o contrário. Se bem empregada, e bem utilizada a tecnologia é capaz de desburocratizar o sistema educacional e qualquer outro.

    Vale pensar no uso que se faz da tecnologia. Um bom planejamento contribui para um excelente resultado, o qual deve ser pensado e repensado…

    PS: faz tempo que não entro no Foragido, gostei das mudanças. Parabéns Joel!!! 😉

    Raquel Elena

    outubro 8, 2007 at 10:28 pm

  2. Concordo com o ditado “Não basta dar o peixe, é preciso ensinar a pescar”.

    E isso não se aplica somente às crianças “beneficiadas” por aqui, mas aos educadores brasileiros. Joel, até na faculdade as pessoas vão lá no Google e se dão por satisfeitas com um ou dois links que aparecem na página inicial. Virou costume. Querem uma informação pronta para dar ctrl+c, e esquecem que, antes do maldito ctrl+v, deve haver leitura, interpretação e aprendizado sobre qualquer que seja o conteúdo.

    O Brasil parou no tempo, não está pronto para aplicar tecnologias de educação como esta, infelizmente. E as escolas que não têm neeeem luz elétrica e água potével para antender seus alunos? A falta de estímulo para leitura? Precisamos formar pequenos curiosos, conscientes do seu país, da sua língua, da sua política, dau sua história…pra depois dar um laptop.

    Enfim, parabéns pelo texto e pela proposta de discussão.

    Larissa Tietjen

    outubro 9, 2007 at 12:31 am

  3. É certo que o interesse dos criadores do projeto não é unicamente ajudar os mais carentes, claro que tem um interesse financeiro com alguma estratégia de marketing por trás, mas temos que ver os dois lados da moeda.
    Tudo é questão de adaptações.
    Se trata de um leptop muito restringido por sua baixa capacidade de memória e Hds de poucos Giga Bites o que não permite que seja instalados programas além dos básicos que vem no Windows por mesmo motivo não se consegue acessar diversos sites, que são mais “pesados”, além disto existem muitas maneiras de se restringir sites indesejáveis.
    Além da baixa capacidade do leptop, o que vai fazer realmente diferença para o projeto ter efeito positivo é ser exigido dos alunos o velho e básico trabalho manual, mesmo que eles usem o clássico ctrl c e ctrl v, serão obrigados a copiar o que já ajuda a aprender, fora que as provas não tem que ser necessariamente pelo leptop.Pelo que se sabe é assim que funciona, porque o projeto até faz o uso de leptops, mas não se tem uma impressora em sala de aula.
    Esse projeto é um avanço positivo, existem muitas pessoas no nordeste que afirmam que nunca viram um computador de perto que com o projeto sairão da exclusão digital o que é muitíssimo importante, não temos que impedir e sim forçar as devidas adaptações.

    Valéria

    outubro 9, 2008 at 5:54 am


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