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Qual é a melhor versão da vida?
Por Joel Minusculi para o Monitor de Mídia.

Uma das cenas mais intrigantes de Matrix acontece logo nos minutos iniciais do filme. O protagonista, Neo, está desacordado sobre seus computadores quando a campainha toca. Ao atender a porta, há um homem acompanhado de duas mulheres que pede um “material eletrônico”, para curtirem em uma festa. Neo sai de cena, para depois voltar com um Mini DVD. Os dois fecham negócio, com a palavra de que um não sabe da existência do outro. Não seria nada estranho, caso a cena não fosse montada como uma negociação entre um traficante e um usuário.

Simulacros e simulações. Estas duas palavras, além de darem nome a uma teoria e a um livro de Jean Baudrillard, estão cada vez mais presentes em nossa realidade. Estas ações são frutos de um movimento virtualizador do mundo, digno dos filmes de ficção científica. Tudo através de sensações artificiais, criadas com sintetizadores e imersão de sentidos. Mas a questão é: até que ponto vale a pena abandonar as sensações reais pelas virtuais?

Um marco dessa tendência, lançado há pouco tempo, foi o I-doser. Através desse programa, as pessoas podem ter a simulação de alguns efeitos físicos de drogas, através de seqüências musicais emitidas pelos fones de ouvido – “bons fones de ouvido e estéreo”, segundo as instruções do programa. É possível se inebriar, por exemplo, com o efeito do álcool, e até com um poderoso psicotrópico chamado “A mão de Deus”. Tudo através de uma simulação mental que, segundo o site do serviço, acontece porque as batidas sincronizam as ondas cerebrais para os usuários sentirem-se eufóricos, sedados ou para terem alucinações, como uma hipnose induzida.

Ainda nas simulações sonoras, um trecho de uma atração da Disney é popular atualmente na blogosfera. O arquivo que caiu na grande rede mostra o nível dessa tecnologia. É o Virtual Barbershop, onde usuário é submetido a um corte de cabelo, com direito a um barbeiro francês e música ambiente. Quando o usuário “entra na onda”, o efeito é surpreendente: ouvem-se passos e ruídos no ambiente, com noção de profundidade e movimento ao redor do corpo, enquanto o barbeiro faz seu serviço e “conversa com o usuário” – além da sensação de que a qualquer minuto uma tesoura vai cortar a ponta de uma da orelha. Mais uma vez a percepção enganada, tudo propiciado por uma técnica chamada binaural recording, sintonizar áudio para esse fim.

O Second Life é uma tentativa, como o próprio nome deduz, de criar uma segunda vida para os usuários. Foi uma das iniciativas mais populares justamente por negar ser um jogo. Aqui é a imagem do avatar, uma personificação gráfica do internauta no virtual, moldada pela vontade do internauta, que conquista o desejo em apenas alguns cliques. A projeção eletrônica pode interagir com todos os outros elementos do seu mundo. Segundo os desenvolvedores desses sistemas, quanto mais perto da realidade, mais longe dos simples jogos eletrônicos, baseados no fantástico.

Os estudos da web 3.0 definem estratégias para as máquinas relacionarem nossos gostos e desejos com o seu conteúdo, para apresentar somente aquilo que procuramos. A professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da Pontífice Universidade Católica de São Paulo, Giselle Beiquelman, em seu livro “Linke-se” define os rumos da informação nessa era. No texto “Sociedade Anônima”, a autora mostra como as plataformas usam os dados obtidos dos usuários, para reverter tudo em um processo de marketing mais efetivo.

Sobre as projeções de futuro, feitas com experiências já em andamento no nosso presente, Beiquelman ressalta duas vertentes da comunicação: na Publicidade e da Propaganda os spams nos e-mails e banners nos sites visitados que buscam informações dos usuários para serem personalizados; já para o jornalismo e mídia em geral é o RSS que faz a informação ir até o leitor, filtrada, mais uma vez, por uma série de preferências e gostos.

Estas inovações estão em um ritmo evolutivo tão rápido, que as pessoas não têm tempo de julgar a repercussão disso na vida real. É como se o virtual fosse a nova fantasia das pessoas, onde estes ambientes simulados e ao gosto dos usuários são como a “Terra dos brinquedos”, do clássico Pinóquio. Tomara que a alienação não seja o fim.

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Written by Joel Minusculi

agosto 9, 2007 às 9:14 pm

Publicado em Artigo, Internet, Projeto

Uma resposta

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  1. Medo! Muito medo!!!

    Tem muita gente achando que a vida virtual, Second Life, que é a vida real…

    Vamos ficar atentos a banalização da vida, dos valores e a supervalorização da tecnologia. Esta deve nos ser útil e não nos dominar…

    Raquel

    agosto 11, 2007 at 5:39 am


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