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A Passagem

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A filosofia budista prega que o mundo é uma grande ilusão. As impressões são percebidas através da construção lógica com os sentidos, que podem ser ludibriados. Tudo o que é pode não ser, como percebem as personagem de A Passagem (Stay, 2005). No longa, dirigido por Marc Forster – o mesmo de Em busca da terra do nunca (Finding Neverland, 2004) – o espectador também pode mergulhar no limiar da sanidade. Mas ficar 96 minutos acompanhando a história pode ser um exercício mental difícil para os menos atentos.

Ewan McGregor (de A Ilha, 2005) interpreta o médico Sam Foster. Ele é um psiquiatra que recebe a missão de cuidar de Henry Lethan (Ryan Gosling, de o Diário de uma Paixão, 2004). Esse último é um jovem estudante de arte e aparenta desvios mentais. Essa relação entre médico e paciente sofre uma reviravolta quando o paciente anuncia o plano de se matar, à meia-noite de seu 21º aniversário, em três dias no tempo da história.

O drama/suspense começa a se desenvolver quanto Henry demonstra ter o dom da premonição. A partir disso, muitos fatos inusitados marcam a corrida contra o tempo de Sam para recuperar a sanidade do seu paciente. Mas, antes disso, o psiquiatra precisa lidar com a sua realidade, junto com Naomi Watts (de King Kong, 2005). Ela, que também já tentou o suicídio, revela-se uma peça chave ao longo da história.

Por ser um quebra-cabeça tão complexo, o filme não alcançou sucesso em bilheterias, e nas locadoras fica nas prateleiras mais baixas. Apesar de contar com um elenco de sucesso, é o tipo de história que precisa muito mais que pipoca e refrigerante para ser digerido. O longa exige que o espectador reúna informações fragmentadas, num jogo de imagens e lembranças. Mas o ritmo não chega a dar um bom motivo para fazer isso.

O longa tem uma fotografia sombria, sem cores vivas e com pouco contraste nos elementos. A câmera nervosa, com ângulos inusitados, dá a impressão de delírio. É importante ficar atento às pessoas e objetos que aparecem nas cenas pois, muitas vezes, se repetem, construindo um grande deja vu. A edição de cortes rápidos e a sobreposição de imagens na transição se intensificam durante a história, o que dá a noção do choque de realidades vivido pelo psiquiatra.

A questão de “o que é real” é levantada diversas vezes, de forma sutil ou mesmo no desespero das personagens em entender os fatos. O existencialismo é debatido entre médico e paciente, a partir do momento que Sam se aprofunda no mundo de Henry. Pessoas que deveriam estar mortas aparecem para o psiquiatra – certa semelhança com O Sexto Sentido (1999) nesses momentos -, talvez numa tentativa de desviar o espectador da verdadeira questão: de quem é e para onde vai a história?

Enfim, uma trama densa e cheia de referências dos principais filósofos existencialistas. Quem espera um desfecho padrão, em que tudo é explicado, pode se decepcionar muito. O filme deixa subentendidos os fatos, para que cada um possa ter a impressão do que realmente acontece. Ou quem sabe os budistas estivessem certos desde o começo?

A Passagem (Stay, 2005)
Roteiro: David Benioff (original)
Elenco: Ewan McGregor, Ryan Gosling, Naomi Watts, Noah Bean
Direção: Marc Forster
Duração: 96 minutos
Gênero: Drama/Suspense

Written by Joel Minusculi

junho 11, 2007 às 1:15 am

Publicado em Cinema

Uma resposta

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  1. Blog adicionado!

    pandini

    junho 11, 2007 at 1:21 am


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