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Duelo à moda brasileira

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Duelo

A proibição do comércio de armas de fogo depende de fatores alheios como o mercado negro e o contrabando.

Eu sou contra o desarmamento! Pronto. Simples, fácil, à “queima-roupa”. Bem, acho que não é tão simples assim. Ultimamente, se uma coisa dessas for dita em qualquer lugar, o indivíduo que fizer isso vai ser alvejado de contrapontos, com os “porquês” para mudar de idéia. E qual será o melhor caminho? Bem, para resolver um problema devemos sempre estar armados, de bons argumentos. Acho que o governo andou lendo Maquiavel: “Um povo desarmado é mais suscetível a ser convencido pelo governo”. O arsenal de argumentos de ambos os lados é vasto, mas desse lado da trincheira está quem não larga mão de um direito.

Informação é o que não falta. Todos os meios de comunicação comentam isso, desde os mais sérios programas da TV Globo até os mais “barracos”. Discussões dignas de gladiadores. Mas o caso é que o lado que vota pelo SIM tenta dissimular aquilo que o lado do NÃO tenta convencer, e vice-versa. Mas pelo que se nota, o grande destaque está para o SIM, com propagandas e temas mais elaborados. As indústrias bélicas, interessadas em apoiar o lado do NÃO, pelas taxas que foram submetidas, não têm de onde tirar dinheiro para a campanha.

Um fato que ocorreu à pouco tempo, quase obscuro, foi o processo de desarmamento iniciado com o aumento das taxas sobre as armas e políticas mais rigorosas de venda. Não que isso seja ruim, mas diminuiu os ganhos das empresas. Isso, como em qualquer empresa, fez com que o capital das empresas diminuísse e fez pessoas perderem seus empregos. Está certo, a questão não está na falência da empresa. Mas é complicado entender como é possível haver um equilíbrio numa situação como essa.

Os dados são muito importantes, principalmente no Brasil, em que muitos acreditam que “aquilo que passa na TV é verdade”. Isso fica estranho, quando cada um dos meios divulga dados gerais diferentes uns dos outros. Por exemplo, a Globo que divulga 81% da população a favor do desarmamento, se opõe à Band que divulga que 90% da população é contra. Isso deixa as pessoas não saberem para onde correr nesse fogo cruzado. Muitos, em meio da poeira levantada pelas discussões, buscam um caminho na luz de suas televisões. E na maioria desses casos, com um adicional sonoro “plim-plim” para atrair melhor.

E justamente nessa confusão que está a questão principal. Como em uma charge de Cao, na edição de 19/09/2005 do Jornal de Santa Catarina, em que um personagem estava em frente a uma urna eletrônica e lê a questão: “Se você não for contra a proibição da venda de armas e munição no Brasil, vote NÃO. Caso você ser contra a proibição da venda de armas e munição no Brasil, vote SIM”. Revoltado, o personagem exclama: “Dá vontade de dar um tiro em quem elaborou essa questão!”.

O problema é que a maioria dos brasileros não têm noção do que está acontecendo. “As pessoas podem decidir sobre uma norma, mas não podem resolver questões complexas como o problema da violência apenas votando SIM ou NÃO”, diz Mônica Herman Caggiano, especialista em direito constitucional, da Universidade de São Paulo. E para esse entendimento o que não faltam são argumentos. É exposto que o bandido pode usar a arma que está em posse dos cidadãos para o crime por parte do SIM, ou ainda, a afirmação de que regimes ditatoriais, como o de Hitler, apoiavam o desarmamento da população.

O entendimento é a questão. E para esse entendimento o que não faltam são argumentos. É exposto que o bandido pode usar a arma que está em posse dos cidadãos para o crime por parte do SIM, ou ainda, a afirmação de que regimes ditatoriais, como o de Hitler, apoiavam o desarmamento da população. Confirma-se isso, em uma idéia muito interessante da revista VEJA (edição 1926, de 12 de outubro de 2005): “Um cuidado nos referendos é apresentar ao povo propostas que o Estado possa cumprir. Uma coisa é se o casamento gay será permitido ou não. Aprovada a medida, ela pode ser aplicada em seguida. A proibição do comércio de armas de fogo depende de fatores alheios ao poder do Estado – como o mercado negro e o contrabando. Não se pode também usar a democracia direta para dar ao Estado o direito de subtrair direitos das pessoas”.

Essa discussão, que foi capaz de até mesmo tirar do foco a crise política e a recente crise do futebol, desperta os “instintos mais primitivos”, como diria Roberto Jefferson. Uma pessoa usa qualquer coisa para causar mal, seja físico ou de outro jeito, quando quer. O problema então que deveria ser resolvido é a educação e a consciência da população. Numa pesquisa recente feita pelo jornalista John Eduard, para Atualidades para o Vestibular 2006 (Anual, da Editora Abril), 57% dos presos americanos disseram que não iriam invadir uma casa se soubessem que lá havia uma arma. Mesmo as armas não tendo nenhuma utilidade além de dispararem projéteis, por enquanto são necessárias até que a mentalidade de parte da sociedade mude. Enquanto isso, as idéias de Maquiavel não parecem tão deslocadas no tempo.

Artigo escrito em 08/10/2005, quando o Brasil convocou pleito para a legalidade das armas.

Written by Joel Minusculi

maio 27, 2007 às 5:05 pm

Publicado em Artigo, Opinião

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