REFÚGIO

comunicação, tecnologia e outros devaneios

24 horas na vida do Joel

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Salvador Dali

Diário virtual. Esse é o verdadeiro sentido de se ter um blog. Muito além de reproduzir coisas legais, mas também ter uma impressão própria do autor. Por isso, aqui está um relato de um episódio marcante: um incêndio que atingiu algumas lojas no centro de Balneário Camboriú. Os fatos estão narrados por horário, os acontecimentos em 25 horas de minha vida. Não é tão emocionante como aquele seriado da Globo, o 24 horas. Mas chamei de 24 horas para dar a impressão de um dia. Entendem? A leitura é longa e sem imagens, para cada um pensar o que quiser sobre a situação.

Quinta-feira – 24/11/2005

22h30: Pronto! Cheguei em casa. Depois de um dia de trabalho e duas aulas na faculdade, pela noite. Enfim, posso comer alguma coisa, tomar um bom banho e passar mais uma noite tranqüila acompanhada por um sono reconfortante.

23h00h: Hoje recusei jogar bola na praia de madrugada. Fui para o computador olhar o email, blog, Orkut entre outras coisas.

23h05: Bem, descobri qual é o problema do meu computador reinciar de 5 em 5 min. É que o estabilizador não faz mais o controle de tensão e percebi que ele está superaquecendo. Solução: Colocar o estabilizador em cima de uma cadeira, perto da sacada com o ventilador ligado, com o mínimo de coisas ligadas pela casa.

23h45: Sinto um cheiro de plástico queimado. Pronto! Foi meu estabilizador “pro saco”. Olho para o lado para ver a situação e vejo pela sacada neblina. Neblina agora?

23h48: Espera um pouco, neblina preta? Vou para a sacada e observo ao redor. Olho para baixo e vejo um movimento intenso na esquina. Até que não estranharia, já que é começo de temporada em Balneário Camboriú. Mas espera um pouco! Tem uma viatura da polícia militar fechando o cruzamento. Ei! Está saindo fumaça daquela loja!

23h50: Corro para o quarto, visto uma camisa, calço um chinelo e pego meu bloquinho com a caneta. Saio, nem tranco a porta. Maldito elevador que demora para chegar!

23h55: Enfim chego no calçadão. Ainda ajeitando o chinelo solto no pé, caminho em direção ao aglomerado que se formou na esquina. Olho ao redor, chega um caminhão e um furgão do corpo de bombeiros. Na afobação, pergunto com o ímpeto de um jornalista, mas com a ignorância de um simples estudante: o que está acontecendo? O bombeiro, que desenrolava uma mangueira, parou o seu serviço, me olhou incrédulo e respondeu: É um incêndio…

Sexta-feira – 25/11/2005

00h07: Caminho entre as pessoas, estão todos tão curiosos quanto eu pela situação. Contorno o caminhão de bombeiros, que fechou a rua e me aproximo de um policial militar. Ele rapidamente me esclarece a situação. Meu instinto jornalístico (ou de intrometido mesmo) me puxava, assim como puxei a caneta do meu bloco, para ter informações.

00h10: Conversando com os policias, consigo chegar no tenente. Ele explicou a suspeita: “Um problema na reforma das lojas, na parte elétrica, ocasionou um curto circuito e pelo sistema de ventilação que há entre as lojas, o fogo se alastrou até uma loja de peças em jeans”. Quando acabei de ouvir as explicações, policiais e bombeiros fizeram uma área de isolamento ao redor da área. Tive que me afastar do fogo. Entre as pessoas que acompanhavam, havia um grupo onde havia pessoas desesperadas e chorando. Conversando com um cidadão ao meu lado, descobri serem os donos da loja.

00h20: Conversei com o pessoal, tentei achar quem viu primeiro e chamou a polícia e os bombeiros. Encontrei três versões. No mesmo instante que falava com o último suposto sentinela, me bateu na cabeça: Espera um pouco, isso vira matéria! Olhei rapidamente ao redor, não vi ninguém da imprensa e corri em direção à praia.

00h22: Rafael Augusto, que mora comigo, sabe e tem equipamento de gravação de vídeo. Ele tinha ido jogar bola com Vinícius, que também mora comigo, na praia. Agora onde iria encontra-los? Sai correndo. Atravessei a Avenida Atlântida, nem olhei se tinha carro vindo, pois por sorte logo que cheguei na calçada à beira-mar avistei os dois mais um desconhecido em uma trave na areia.

00h23: Rapidamente joguei para frente os chinelos que estavam no meu pé, abaixei rápido e segurei na mão o calçado. Corri pela areia em direção ao trio. A única coisa que eu disse foi: “Vem rápido, tem um incêndio ali na Central!”. Não tenho a mínima idéia do que passou na cabeça dos meus dois colegas, mas quando me viram correndo em direção à eles, me seguiram de volta para casa. Só lembro de ter visto de relance a terceira figura ficar parada sem entender nada.

00h30: Corremos para nosso apartamento. Maldito elevador que demora para subir. Na euforia, expliquei a situação: “Possivelmente eles [os bombeiros] estão tentando apagar o fogo da fiação elétrica reformada!” Está certo, quando a gente pensa muita coisa ao mesmo tempo tudo fica confuso. Meus companheiros riram da minha cara e foram para a sacada ter uma melhor impressão da situação. Viram o movimento e a fumaça. Recolhemos o equipamento e, maldito elevador que demora, descemos.

00h33: Chegamos ao local. Nossa equipe então avaliou a situação no momento. Ei! A câmera não tem bateria. Enquanto os outros estavam preocupados com o fogo, nós estávamos preocupados em achar uma tomada. Enfim achamos. Ligamos o equipamento com muito custo. Esquecemos a fita VHS!

00h35: Rafael saiu em disparada de volta para o apartamento. Enquanto isso, conversei com alguns bombeiros que estavam no caminhão. A situação parecia quase no fim, mas os bombeiros afirmavam dificuldades: “Essa loja de roupas é um labirinto, além do mais, essa porta aí, que só tem 1,5m, não dá de entrar com nada! Além disso não tem nada de segurança contra incêndio”.

00h40: Enfim temos uma fita VHS. Começam as gravações. A fumaça já havia se dispersado e não havia mais fogo. Mas continuamos as imagens, alguma coisa talvez poderia ser aproveitada.

00h45: Conversei com mais algumas pessoas, ouvi comentário, até que avistei o sargento dos bombeiros sair da loja. “O fogo foi extinto!”. Tentei conversar com ele, mas ele estava cansado e não queria falar nada. Se eu quisesse alguma coisa dos bombeiros, teria que falar com eles pela manhã.

01h00: Continuamos a fazer imagens. Mudamos uma vez de posição, pois achamos outra tomada. Pessoas que passavam perguntavam o que havia acontecido e nós explicávamos. Enfim, depois de algumas discussão na equipe do que deveria ser ou não gravado, fomos para casa.

01h30: No caminho para casa, passamos por um porteiro que estava à frente de seu prédio. Rafael puxou conversa e acabamos descobrindo que ele chamou os bombeiros, às 23:30h. Últimas informações anotadas e ida para casa, pegamos o elevador e subimos.

01h35: Sem o mínimo de sono e com uma empolgação muito grandes, eu e meus companheiros discutimos o que faríamos com que tínhamos na mão. Lembrei que tinha o telefone de um responsável pelo jornal da RBS. Acordamos ele, em plena noite de folga e oferecemos o material. Ele aceitou.

02h30: Fui para o computador passar à limpo as informações. Aproveitei o embalo e postei algo no blog e mandei alguns e-mails. Fui dormir, à muito custo. Pela manhã deveria ir aos bombeiros.

07h15: Ao som de meu celular com a música Faint, do Linkin Park, num pulo saio da cama. Lavo o rosto, engulo uma maçã. Rafael também acorda, vamos para a garagem do prédio, pegamos a moto dele e vamos para o corpo de bombeiros.

08h00: No batalhão dos bombeiros, confirmamos todas as informações, agora oficiais, com o Sargento Delamar. A suspeita do início do incêndio foi confirmada. Os horários baterão e o porteiro do prédio realmente foi o primeiro a chamar os bombeiros. Com o material pronto. Voltamos para o apartamento.

08h20: Nós combinamos o que iríamos fazer. Deveríamos ir à sucursal da RBS, em Itajaí, para passar o material e falar com a Deise Somariva. Vinicius e eu iríamos de praiana e Rafael de moto, pois depois iria direto para sua casa em Rio Negrino. Um copo d’água e fomos.

08h30: Quando Vinicius e eu chegamos no ponto de ônibus, havia um pequeno grupo de pessoas ao redor de uma senhora. Não vi direito como ela estava, só que ela foi embarcada dentro de um carro e levada em direção ao hospital. Conversando com alguns do local, no mesmo momento que passou um carro do resgate, descobri que ela tinha acabado de ser atropelada.

08h40: Enfim após esperar, o ônibus para Itajaí chegou. Mas no mesmo instante, de um terreno baldio perto do ponto, sai um senhor de idade mais avançada com a mão na cabeça e meio que desesperado. Observei a situação, dois outros homens foram acudir. O senhor tirou a mão da cabeça e havia sangue. Acabara de ser assaltado! Na dúvida entre esperar o próximo ônibus e conversar melhor sobre a situação, acabei indo para Itajaí.

09h00: No caminho, pensava no que aconteceu na madrugada, ligado ao acidente e mais o assalto. Teorias Conspiratórias à parte, mas o mundo estava meio que virado. Com sono, ouvia a banda Calipso na estação Menina FM que passava no rádio do ônibus.

09h20: Logo que chegamos na faculdade, ponto de encontro entre Vinicius, Rafael e eu, fomos direto para a redação da TV RBS. Uma caminhada relativamente rápida, durante o caminho íamos discutindo sobre tudo.

09h40: Após conversar com a repórter Deise Somariva e cinegrafista Luizão, tivemos que arrumar um jeito de passar as imagens da fita VHS para o formato Mini DV. Eu que não conheço bulhufas dessa parte técnicas, simplesmente pensava onde poderíamos arrumar essas coisas. Apesar de ser do grupo RBS, a sucursal não dispunha de muitos equipamentos (mas representantes comerciais não faltavam).

10h00: Fomos então para o estúdio de TV da Univali. Lá eles possuem os mais modernos equipamentos de vídeo. Mas havia um pequeno problema. Apesar de sermos estudantes da própria universidade e de jornalismo, uma burocracia e o mal humor de um responsável pelo equipamento impediu a conversão do vídeo. Depois de correr muito atrás da autorização, de uma tal fita mini DV, do técnico para ajudar, um (maldito) simples cabo que precisava ser trocado (até eu fazia aquilo) não foi, por mal humor da pessoa responsável por trocar esse cabo. Desolados, voltamos para a RBS.

11h30: De volta à sucursal, esperamos Luizão chegar, para ver se havia alguma alternativa. Esperamos um pouco, ele chegou. Rafael então conversou com ele e foi visto que a única maneira seria buscar a câmera em que a fita VHS foi gravada, para ser feita uma gambiarra. Rafael então foi para Balneário.

12h00: Enquanto eu batia um papo com a Deise Somariva no mini-estúdio, Vinicius aguardava num sofá na recepção. Depois de um tempo, Rafael volta com sua câmera e com Luizão arrumam um jeito de passar as imagens para a sede de Blumenau. Tudo certo, as imagens foram passadas, mas tarde de mais, pois o jornal do almoço já havia começado. Mas foi nos dito que uma nota no jornal da noite iria ser veiculada sobre o incêndio, usando nossas imagens, informações e creditando.

12h30: Desolados, saímos da sucursal da RBS com uma impressão de derrota. Apesar de nossos esforços, os elementos envolvidos não colaboraram (imagino eu quando um jornalista se esforça um monte para montar a matéria e não consegue). Cansados e com fome, Vinicius e eu nos despedimos de Rafael que foi para sua casa e depois fomos comer alguma coisa na “Vó Carola”, um café restaurante de Itajaí. Já almoçando, nossa amiga Susan nos liga. Havíamos furado um almoço que combinamos no dia anterior.

13h20: Fomos então de volta para a Univali. Apesar de tudo, ainda havia o estágio pela tarde e uma formatura pela noite. Depois passei uma tarde tranqüila, escrevendo algumas notas para publicar no site do Monitor de Mídia.

14h45: Rafael me liga no celular, avisando de um acidente que ele presenciou. Um caminhão havia tombado na serra, sem mortes ou feridos graves. Rafael fotografou e juntou informação. Outra hora a gente montava uma matéria disse para ele, já que eu ainda estava desolado pela aquela empolgação barrada por burocracias e impasses.

16h30: Fui assistir a colação dos cursos de Comunicação Social. Haviam vários conhecidos, mas o mais engraçado foi bolar teorias conspiratórias envolvendo o César Souza (que estava escolhido pelas turmas) e um globos com umas pessoas estranhas dentro, fazendo algumas coreografias. No final do discurso do César, todos pensaram que ele iria dizer: “E agora, a primeira dezena da Casa Feliz é…”.

18h30: Depois da formatura, estava convidado para um jantar da Naiza, a formanda que conheço e trabalhou comigo no estágio. Só que era num restaurante em Itapema, meio longe de onde eu estava e morava. Consegui carona com meu chefe. Foram então Rogério (chefe), Marjorie (colega de trabalho) e eu. Meu estado era meio que deplorável pelo dia que passou, resolvemos então fazer uma parada estratégica no meu apartamento em Balneário para me recompor e colocar uma roupa mais apresentável. Tudo pronto e partimos para Itapema.

20h30: Tudo certo. Recepção do pessoal no restaurante, bastante gente conhecida. Fazia tempo que não tinha uma situação assim mais “família”. Lembrei dos almoços de final de semana na minha cidade, com uma pequena diferença de muito camarão nesse jantar (que alias mereceram repetição na porção). Depois de servir de cobaia para provar os bombons (que também estavam muito bons) para Marjorie e Valquiria (professora), um pouco mais de conversa e fui para casa.

23h30: Junto com Laura, Valquíria, Marjorie e Bibiana, volto para casa pela BR. Saltei onde normalmente pego ônibus todos os dias. Fiz o caminho para casa e me perguntava como eu estava de pé a tanto tempo, já que me conheço e gosto de um bom sono. Cheguei, tomei “aquele” banho quente (antes foi só uma chuverada fria para acordar), despenquei na cama e dormi. Acho que agora prefiro as coisas apagadas.

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Written by Joel Minusculi

maio 27, 2007 às 5:43 pm

Publicado em Diário

2 Respostas

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  1. Querido,

    Infelizmente vcs trouxeram o material em fita errada. E o material não saiu no Jornal do Almoço por causa disso… Esse négócio de “montar a matéria e não consegue” está totalmente equivocado. Transcodificar imagens não tem nada a ver com a minha função.

    Abraço,

    Deise Somariva.

    deise

    maio 30, 2009 at 1:51 am

    • Olá Deise!

      Que interessante tanto tempo depois você encontrar o texto…

      Na época que escrevi esse relato, ele foi como um desabafo misturado com a empolgação dos primeiros períodos de faculdade.

      Com a RBS meus amigos e eu ficamos felizes, pela receptividade. Só lamentamos que não podemos transmitir o fato – porque acompanhamos o jornal quando podemos.

      O maior desapontamento foi com a nossa universidade, que não nos ajudou nesse serviço técnico de converter o vídeo da questão – o papel deles seria nos auxiliar enquanto pagamos as mensalidades. Mas isso é outra história…

      Obrigado por seu comentário, apesar desse meu blog estar um tanto abandonado pela correria da faculdade.

      Se estiver interessada, conheça o meu outro blog: http://peganomeu.wordpress.com

      Abraço!

      Joel Minusculi

      junho 2, 2009 at 9:49 pm


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