REFÚGIO

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Quando o jornalista vira jornaleiro

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Jornaleiro

Muitas vezes, as coisas não são como nos fazem parecer ser. Pelo menos é o que pude ver e percorrer em um bairro da cidade de Itajaí, o Nossa Senhora das Graças – mais conhecido como o Matadouro. O contraste está presente em muitos lugares, além dos nomes como é conhecido o local. Começando pela localização, logo ao lado da Universidade do Vale do Itajaí – Univali, que representa um local onde se encontram, pelo menos algumas, pessoas interessadas em desenvolver mais o conhecimento para construir uma sociedade melhor. Já em uma favela há pessoas interessadas em continuar vivendo, dentro do possível e com o que têm.

Mas o caso é que eu fui para lá. Primeiro para a Univali. Um dia antes do dia em questão, em uma conversa de ônibus com minha colega de curso Letícia, decidimos que iríamos distribuir o Cobaia Popular no bairro. O jornal, que é de iniciativa dos acadêmicos do curso, tem por objetivo alcançar a massa popular. A idéia até que foi interessante, pois eu já havia ajudado em outras situações na distribuição e não conhecia o local que iríamos. E assim foi combinado.

Como não conhecia o local, comentei com outros colegas para onde iria. Eles ficaram um tanto que admirados com isso. Ilustravam a situação como se eu fosse subir um daqueles morros que mostram nos seriados da Globo. Tudo bem. Às vezes as pessoas, quando sabem que não conhecemos algo, montam a situação como lhes convém. No outro dia, novamente no ônibus, encontro Letícia com um livro muito interessante: Narcoditadura, o caso Tim Lopes, de Percival de Souza. Leitura interessante, quando se trata de jornalistas e morros.

Tudo pronto então. Fardos de jornais, camisetas evidenciando a situação de jornalistas (pelo menos em formação), despedidas e pé na estrada. Melhor, nas vielas. Logo na saída, encontramos uma jovem grávida sentada em frente de sua casa. Ao oferecermos um jornal, aceitou prontamente. Com um primeiro contato estabelecido e um tanto quanto turistas, pedimos informações pelos melhores caminhos para seguir. E assim seguimos.

Mais adiante, numa mercearia do local, encontramos algumas pessoas que ficaram interessadas com o que estávamos fazendo. Explicada a situação, olharam os jornais. Um dos homens que estava lá comentou do que adianta distribuir um jornal por aí se quase ninguém sabe ler. Uma senhora, que também estava lá, se interessou por imagens de flores que estavam na contracapa. Entre a discussão, acabamos entregando os jornais e seguindo.

Abordávamos as pessoas pelas vias. Surpreendidas e ao mesmo tempo curiosas, pegavam o jornal, pagando com uma expressão de agradecimento. Quanto mais subíamos, mais estreito, inclinado e complicado era o caminho. Passando, por muitas vezes, entra as casas, por escadas, terra batida, algumas pontes de madeira, becos estreitos seguíamos o caminho, até que a missão estivesse cumprida.

Também encontramos pessoas que estavam “tranqüilas” e não quiseram o jornal. Talvez as pessoas, como disse uma jovem ao entregarmos um jornal, buscam uma forma de “distrair a cabeça” em meio das dificuldades, seja com a televisão, música alta, devoção religiosa, um jornal ou outras coisas que numa visão geral pode ser ruim, mas para alguns lá é um meio. Às vezes com contrastes drásticos da situação. E íamos subindo.

Sempre em frente, entregamos um jornal e pedimos mais informações. Logo após a conversa e uma despedida seguida de boa sorte, encontramos uma guia. Letícia, ofegante, comenta que deve ser um bom exercício a subida. A mulher responde normalmente que de tanto subir não perdem mais nenhum quilo, já que estavam acostumados a subir. Nisso eu percebi que muita gente está conformada com as coisas e já que continuam vivendo assim está tudo bem.

Uma coisa que aprendi na minha época de mateiro, é que devemos seguir caminhos com certa ousadia, para ter noção de terreno. Quando você não conhece o local as coisas as vezes ficam complicadas. Letícia estava com medo dos cães que havia no caminho, que simplesmente estavam protegendo seus territórios. Estavam mais com medo de nós do que nós deles. Nos meus conhecimentos de natureza, já havia aprendido que é só não perturbar para continuar tranqüilo o caminho. Por isso devemos estar sempre atentos, mesmo para que involuntariamente não provocar sem motivos.

Continuando a subida, fomos abordados por um homem. Eu prontamente ofereci um jornal. Ele pegou, olhou, virou, olhou para mim e me questionou quem éramos e o que estávamos fazendo aí. Com a situação explicada, ficou entretido com o jornal e deu uma despedida seguida de um “sigam tranqüilos”. Depois de passar pelo território que este homem estava, tivemos uma das melhores vistas que já tive de Itajaí e também um dos maiores contrastes. Na direção do mar, eu via uma cidade com ruas de projeções aritméticas perfeitas, o porto da cidade, a universidade em quase a totalidade, enfim, uma vista inesquecível. Mas o hábito e outros fatos acabam tirando o deslumbre.

Em nossas costas ainda havia muito caminho pela frente. E muitas pessoas que ficavam felizes ao receber um simples jornal, mesmo muitas vezes não sabendo ler, mas pelo simples fato de alguém ter dado atenção. Seja abordando na rua, seja para uma criança que ostenta para as outras como um troféu, para o idoso sentado só em meio à viela. Subindo em locais que nunca se imaginaria haver uma pessoa ou em lugares onde você não imaginaria caber mais do que uma.

Muito mais do que fazer as matérias no jornal, mas poder ver o retorno delas, ver a identificação com semelhantes no jornal popular, a admiração por flores que não haviam no local, nem que seja só no papel. Ouvir relatos para ter mais materiais, seja da dificuldade de subir o morro em dias de chuva, da estrutura de saneamento ou falta dela, da segurança, da diversão…

Além do Jornalismo, existe um outro fator. A Comunicação Social, como diz o próprio nome e nossas aulas de Teoria da Comunicação, é a troca de informações entre as pessoas, sociedade, o tal do feedback. Por isso a importância de ter um contato maior com o leitor, pois é para eles que estamos produzindo. Por isso mesmo a importância de estarmos na universidade, pois essas oportunidades, de juntar a técnica com a prática, nos dão noção da sociedade e como lidar com ela, mesmo que seja só para conseguir entregar um jornal tranquilamente.

No final, aquele livro com uma idéia do Tim Lopes foi interessante: “Devemos nos livrar da gaiola das aspas”. Não que não devemos deixar de usar para estruturar a notícia, mas não nos resumirmos só nisso. Fazer uma descrição aprofundada para assim jogar o leitor dentro do texto. Da notícia que não ignora a técnica, mas vai além dela. Para chegar a um bom profissional, sei que ainda devo escrever muito e subir muitos morros. Mas agora descemos.

Enquanto isso, lembro de um senhor mais de idade, que nos ensinou caminhos por dentro do bairro para chegarmos a muitos outros lugares, inclusive ao topo do Morro da Cruz e ao Cadeião. Nesse último elogiou bem o lugar, comparado onde ele vive. Mas ele estava feliz, porque pelo menos estava melhor do que outros por ter um pouco de cimento na frente de casa. O senhor e essa visita instigaram para repedir a dose. O Matadouro fez seu serviço nos pré-conceitos. Quem sabe, pode haver nesses outros lugares pessoas interessadas em ler um Cobaia.

Relato feito com experiência vivida no dia 03/11/2005

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Written by Joel Minusculi

maio 25, 2007 às 6:48 pm

Publicado em Relato

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