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A prática do nada

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Nada

Diante da vida agitada que muitos levam, feriados no meio da semana são oportunidades perfeitas para dedicar um tempo para coisas pessoais. O cardápio de opções é grande, que vai desde assistir a um filme, passear no calçadão ou mesmo cortar as unhas do pé. Todas as atividades consideradas necessárias e, graças ao espaço na agenda, podem enfim ser cumpridas. Mas nenhuma delas equivale à prática do nada.

Diferente do ócio criativo, em que você simplesmente pára e as idéias começam a surgir, fazer nada é muito mais complicado. Primeiro porque você não deve fazer… nada. Em segundo lugar, porque não deve haver nada além do primeiro ponto. Nem mesmo um espasmo mental, que sugira arrumar a casa, é permitido.

O nada também não deve ser confundido com o coçamento de saco, atividade vastamente exercida por desocupados casuais. Muito menos ser considerada uma atividade de vagabundos, já que estes tentam aproveitar ao máximo o tempo em prazeres ou em algo que gere algum lucro sem esforço.

Poucas coisas são permitidas dentro da filosofia do nada: como almoçar, desde que você não prepare nada, simplesmente só jogue a comida na boca, mastigue e engula; necessidades fisiológicas e higiênicas, desde que não sejam por vaidade; ir para curtas distâncias, desde que não faça nada, nem ir a praia e nadar no mar.

Para o pleno exercício do nada é recomendável não empregar ativamente nenhum verbo, pois esta elocução exprime ato. Caso seja usado “fazer nada”, conjugue sempre a oração com um advérbio de negação e mais “nada”. Então, se questionado pela clássica pergunta de como aproveitou o feriado ou final de semana, responda simplesmente “não fiz nada”.

Isto é muito complicado, pois meros mortais não compreendem este limiar entre o estado ativo e vegetativo. As pessoas simplesmente não se conformam que alguém possa não fazer nada, pois indagam todos os seus passos, até descobrir uma falha nesta falta de atividades. A necessidade de fazer algo é mais importante do que é feito hoje em dia.

O nada não deve ser praticado à revelia, pois, caso se torne um hábito, consequentemente como todo hábito, se tornará algo banal. Mas eu acho que estou divagando demais e cheguei ao estado do “nada com nada” de idéias. Preciso fazer alguma coisa, porque nada é demais às vezes.

Written by Joel Minusculi

maio 25, 2007 às 5:52 pm

Publicado em Crônica, Devaneio, Literatura

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