REFÚGIO

comunicação, tecnologia e outros devaneios

Como liquidar desilusões

with 2 comments

Liquidar

O dia não havia sido bom. Não porque se atrasou para chegar ao emprego pela manhã. Nem pela colega de trabalho ter ido com um sapado igual. Muito menos por estar naquela época do mês que só é resolvida com bastante chocolate e atenção. Bem, talvez no último motivo houvesse uma parcela de verdade. Mas Helena tinha o orgulho tão inchado quanto supunha ser gorda, para poder admitir o estado de carência.

Cada hora foi um século, justamente pelo desejo de poder estar em casa e sanar suas vontades. Então, assim que chegou ao lar, a primeira coisa que Helena fez foi analisar cuidadosamente seu reflexo no espelho, logo no corredor de entrada, do lado contrário ao que a porta abria – detalhe que ela havia visto numa revista, para atrair boas energias.

Em um rápido movimento de cabeça, do mesmo jeito que aprendeu numa propaganda de shampoo, arrumou os longos e lisos cabelos castanhos. Como se os dedos fossem borrachas, tentou apagar pequenas marcas que despontavam na pela clara e macia de seu rosto. Tudo isto acompanhado criticamente pelos dois grandes olhos amendoados.

Helena então estufou o peito e encolheu a barriga. Apesar de já ser relativamente alta para o sexo feminino, ela ficou na ponta dos pés e fez uma pose, mostrando seu perfil direito. E no mesmo instante que soltou o ar, como se tivesse recebido um soco no estômago pela realidade, despencou junto com suas lágrimas. Não tinha jeito, nada a fazia crer que ela era bonita naquele dia.

***

Helena jogava a culpa de estar sozinha no que o espelho mostrava. Não que não tivesse alguém em vista. Muito pelo contrário, pois ela só tinha olhos para Marcondes, o grande amor da sua vida naquele mês. Conhecido desde os tempos de faculdade, ele era normal para padrões gerais, mas especial para o coração da jovem que estava aos prantos naquele corredor.

Num outro surto de realidade lembrou de uma das suas promessas: nunca mais iria chorar por um homem. Como se nada tivesse acontecido, Helena enxugou as lágrimas com as costas da mão e foi até a geladeira pegar um chocolate. Para a sua felicidade, encontrou uma barra inteira do doce com recheio de caramelo, seu favorito. Encheu um copo com Coca-Cola e levou seu singelo jantar consolador para frente do computador.

Depois de se convencer que não iria pensar no dito cujo, conectou num bate-papo virtual, jurando que não iria puxar conversa com Marcondes – o primeiro que procurou on-line na tela. Helena então começou a desmerecer aquele “ogro infeliz e idiota”, na tentativa de amputá-lo de seus pensamentos. Azar o dela que ele, só com o olhar, havia cravado raízes em seu retumbante coração.

Resolveu minimizar seus problemas lendo notícias. Primeiro foi para estética e saúde, onde encontrou dicas de dieta. Lá os dois principais elementos a serem cortados eram os chocolates e os refrigerantes. E com aquele olhar de desprezo feminino, isolou os quitutes que a acompanhava.

***

A intrépida internauta começou então a conferir sua caixa de e-mails. Entre propagandas, que ofereciam o maravilhoso emagrecimento durante o sono, e aquelas apresentações de slides com mensagens tocantes, Helena viu um com fotos de uma festa temática que aconteceu fazia pouco tempo. Relembrou sua fantasia, repetida com mais duas participantes, e também os ressentimentos afogados em goles de caipirinha de vinho. Até que achou uma foto, em que aparecia abraçada a uma amiga e, em último plano do enquadramento, Marcondes aos beijos com alguém que não era ela.

A vontade de Helena era podar a cabeça daquela pequena usurpadora, que considerava um “bonsai subdesenvolvido” por ser menor do que ela. Então a raiva aflorou num surto de risadas irônicas, com pensamentos desmerecedores à Marcondes. Mas isto não foi suficiente para ludibriar seu coração TPMramental. E o seu mundo começou a desmoronar junto com as lágrimas novamente.

Quando o momento de hidroflagelação foi interrompido por um pedido de atenção na tela do computador. Era Ariston, um conhecido dela também dos tempos de faculdade. Depois dos cumprimentos formais e padrões da internet, o “como está?” virou um monólogo por parte de Helena. Ela simplesmente espancava com os dedos freneticamente o teclado, enquanto seu casual leitor acompanhava mais aquelas “frescuras de mulher”.

Para quebrar o clima, Ariston mudou o papo com uma de suas histórias. Ele, que trabalhava de enfermeiro num pronto atendimento, tinha muitos episódios peculiares para contar. Para o momento começou a descrever o último caso que atendeu. Havia sido uma tentativa frustrada de suicídio, de um cidadão que tentou o feito com golpes de machadinha na própria testa.

Já acostumado com fatos mórbidos, Ariston fazia piada daquele tão fracassado “cabeça dura”. Enquanto isso, Helena lia horrorizada a descrição do traumatismo causada pelos golpes e como o sangue jorrou nos enfermeiros durante os pontos. Ela então sentiu nojo. Depois pena do infeliz, que se desenvolveu em um sentimento de tristeza, pelo que ele deveria ter passado para tal extremo. E começou a lembrar o que passava com ela mesmo, quando, no mesmo instante, viu na história da tela como acabar com seus próprios problemas.

***

Uma enxurrada de imagens distorcidas e lógicas infundadas sufocou seus pensamentos. Então Helena simplesmente saiu da frente do computador e foi para a cozinha, onde preparou um copo de água com açúcar. Pôs as duas mãos no rosto, abriu os dedos em forma de leque e, como se quisesse liberar de sua cabeça os pensamentos ruins, empunhou com força a caixa de pandora que estava sobre seu pescoço.

Uma idéia ruim retumbava no profundo subconsciente, fazendo da consciência algo inútil naquele momento. E Helena virou num gole o conteúdo do copo, na esperança de servir como um bálsamo restaurador para seu sofrimento. Mas seus pensamentos eram tão amargos que, ao invés do doce sorvido, só sentiu o gosto salgado da lágrima que tocou o extremo de seus lábios.

Frustrada por não ter o alívio esperado, Helena empunhou firme o copo e quis cravá-lo na pia. Assim como sua realidade, o vidro se despedaçou e a mão alva e macia ficou vermelha e rasgada com pequenos estilhaços. Mas seu instinto de sobrevivência ainda funcionava, quando rapidamente tirou os cacos de vidro, que abriram dois cortes superficiais, e enrolou a mão no primeiro pano de prato que encontrou.

Ela não sentiu dor. Talvez por ter sofrido uma overdose de sentimentos, teria que ser algo muito mais forte para ser percebido. Nisso seu coração acelerou quando, no mesmo instante em que olhava para o nada buscando respostas, viu uma convidativa faca de destrinchar aves. Praticamente em frangalhos, seus dedos ainda sujos de sangue percorreram o cabo, até abraçarem aquele utensílio.

Helena tentou admirar um reflexo, tão distorcido quanto suas idéias, naquela lâmina. Mas não gostou do que viu. Ela, que sempre gostou de seu cabelo molhado, foi até o banheiro. Abriu o registro de água da banheira e deixou encher. Sem noção de tempo, observou o nível da água subir, até a metade da capacidade máxima. Com todo o cuidado, deitou dentro, até submergir por completo, com os braços cruzados sobre o peito e ainda com a faca na mão.

***

Quando se deu conta que precisava respirar, Helena não quis levantar. A sensação de aperto pela falta de ar era como um abraço fúnebre, capaz de sufocar todas as dores. Seu corpo, sem o efeito da gravidade, encontrava um repouso nas calmas águas daquela banheira, mas seus pensamentos ainda estavam inquietos. E, como no despertar de um pesadelo, ela procurou oxigênio quando se apoiou na borda da banheira.

Não havia mais motivo para continuar daquele jeito. Pelo menos era o que Helena achava, por sempre repetir as coisas com as outras mulheres, não poder comer seu chocolate ou não ter o Marcondes. Então, no reflexo da faca manchada por um fio de sangue da sua mão, Helena viu seu reflexo deposto dentro da banheira. E ela gostou do vermelho em que estava submergida dentro da lâmina.

Mas a água não estava daquela cor. Helena quis resolver isso, mas não havia nenhum sal de banho daquele tom. Frustrada, começou a chorar novamente. E, junto com suas lágrimas, viu cair na água uma gota de sangue dos pequenos cortes da mão e descobriu como tingiria o conteúdo da banheira. Ela então achou uma resposta. Um corte no pulso seria suficiente, tanto para mudar a cor quanto para acabar com os problemas.

Apesar de achar linda sua própria imagem dentro de uma banheira rubra, Helena tinha dúvida de como fazer o corte: se acompanhava ou cruzava o pulso em relação às veias. Seu lado perfeccionista era ativo inclusive nestes momentos, pois, caso fosse má sucedida, ela seria mais um atendimento de Ariston e motivo de piadas virtuais.

Jogou longe a faca em um surto de raiva. Helena estava num estado extremo de desolação, até que lembrou outra forma de acabar com tudo. Ela tinha visto num filme, não lembrava qual, que uma mulher deixava cair dentro da banheira o secador de cabelos e, depois de alguns espasmos, simplesmente caia num sono muito profundo. Mas a revolta voltou, quando lembrou que seu secador havia queimado na semana passada.

Então, numa daquelas idéias repentinas, descobriu como poderia liquidar seu sofrimento. Saiu com todo o cuidado da banheira, com passos mansos, como se não quisesse acordar alguém. Foi até a cozinha, fez um pouco de barulho ao revirar algumas prateleiras. Encontrou, abraçou firme sua solução e voltou a passos firmemente decididos para o banheiro.

***

Agora ela tinha uma saída, um tanto quanto excêntrica, mas pelo menos era original. Como se estivesse de luto, Helena se aproximou da banheira, deixou com todo o cuidado sua solução no chão e imergiu nas águas, daquela que pressupunha ser seu esquife. Já sentada, juntou as mãos em forma de concha e lavou o rosto, na tentativa de acordar de um pesadelo. Mas tudo aquilo era assustadoramente real, assim como suas intenções.

Novamente as idéias e acontecimentos retumbaram num turbilhão de lógicas incertas. Ela respirou fundo, como se fosse a última vez que sentisse o cheiro de seu shampoo de goiaba que preenchia o ambiente. Fechou os olhos, soltou devagar a respiração, ao mesmo tempo em que seus braços saíram da banheira. A dupla cheia de dedos procurou freneticamente e, com isso, o coração de Helena acelerou.

Nisso começou a sentir as batidas do seu coração, que pensava estar inutilizado por falta de uso. E nisso começou a acelerar, como uma locomotiva, cada vez mais forte e rápido. As mãos começaram a dançar pelo piso frio e úmido, na esperança de encontrar o mais rápido possível a solução. Até que esbarraram nela. Receosas, acariciaram para confirmar o achado e as mãos levaram seu achado para frente do rosto de Helena.

Apesar de ter sentido as batidas do coração desacelerarem, ainda ouvia uma batida forte e ritmada. Puxou mais uma vez a respiração e largou sua solução, que caiu como se fosse de um penhasco, naquela água rasa de sentimentos tão profundos. E assim o momento foi repentino e estranho, porque não sentiu nada no começo. Até que sentiu seu corpo estremecer, como se fosse mais um soco de realidade. Sentiu subir e se espalhar por todo o corpo, num rápido ápice por todas as extremidades, terminado numa vertente corporal. Depois disso não sentiu mais nada.

***

– Helena! Helena! Você está me ouvindo?

– Oh meu Deus… o inferno é tão escuro assim?

– Espere um pouco, vou tirar o cabelo da frente do seu rosto.

– Ah! Agora sim… Mas espera um pouco. Eu ainda estou aqui, viva e dentro da minha banheira!

– Ainda bem, né…

– Mas espere um pouco, quem é que… mas heim!?!?

– Oras, o Ariston estava conversando com você pela internet e também comigo. Daí ele disse que você parou de teclar com ele, sem mesmo avisar que saiu.

– …

– Então ele me contou que você estava um tanto quanto “abalada” por alguma coisa, mas não sabia explicar o quê exatamente. Já que eu sabia onde você morava e fiquei preocupado, resolvi dar uma passada aqui e ver se estava tudo bem.

– Mas… Mar…

– O porteiro era meio amigo e já me deixou entrar na hora mesmo. Cheguei aqui no seu apartamento e bati na porta. Como o porteiro confirmou que você estava em casa, e já que não veio me atender, tive que entrar. Forcei um pouco e quebrou a fechadura, mas depois eu pago os estragos…

– Mas… Mar… Marcondes?!?!

– Sim, eu mesmo.

– …

– Procurei você pela casa, até que encontrei um copo quebrado na pia da cozinha e umas pequenas gotas de sangue no chão. Segui um rastro até o banheiro, que tinha na entrada uma faca! Até que vi você na banheira… mas ainda bem que você não fez uma besteira maior…

– Mas eu deveria estar morta!

– Com um liquidificador dentro da banheira?!?! E ainda fora da tomada?!?!

– Ah, foi a primeira coisa elétrica que encontrei na cozinha…

– Você realmente quis “liquidar” seus problemas, não?

– Hahahahaha

– Tudo bem, o trocadilho foi ingrato, mas o ato foi original. Tão original que mereceria uma história!

– Mas espera um pouco… Você não deveria estar com sua namorada?

– Que namorada?

– Aquela que você estava beijando na festa a fantasia…

– Aquela doida bêbada, que me agarrou porque já estava no final da festa e não tinha ficado com ninguém?

– Mas a gente conversava tanto da faculdade, mas na festa nem viesse dizer oi…

– Que você não largava das suas amigas, para eu poder bater um papo com você?

– …

– Mas tudo bem, pelo menos agora consegui um pouco da sua atenção.

– …

– Agora, por ter te “salvado”, a única coisa que quero é ir tomar um chocolate quente contigo. Topa?

– Tudo bem…

– Beleza! Te espero lá fora, enquanto você se seca. Mas agora, só uma dúvida. Por que a água está vermelha, já que estou vendo agora que os cortes na mão não foram tão profundos?

– Ah! Isso é coisa de mulher…

Posfácio

Helena não é única. O “turbilhão de idéias”, que atormentou a protagonista de Como liquidar desilusões, é comum em muitas Helenas, Andréias, Lucianas, Alines, Marinas, Brunas, Camilas, Karinas, Carolinas, Jéssicas, Lilians… A personagem do conto foi construída através de diversos fragmentos, furtados de conversas ouvidas ao acaso de tais exemplares femininos.

Tudo isto delimitado por idéias surgidas numa conversa no fundo do ônibus, na volta da faculdade. O teclado do computador levou várias seções de espancamento, até que cada parte da história fosse concluída. Cada post era feito sem se ter a mínima noção do que fosse acontecer no seu sucessor. Assim a ficção imitou a realidade.

A personagem tomou vida própria. Apesar de muitos que acompanharam a história querem ter dado rumos, Helena mostrou a teimosia e a convicção feminina, pois, ao mesmo tempo em que estava decidida ao fim, não tinha certeza do que estava fazendo – um dos paradoxos mais comuns observados na maioria das mulheres, nesse “querer fazer não fazendo”, ou seja, que simplesmente aconteça.

Outro ponto que merece ser comentado diz respeito ao de as mulheres querem adivinhar os pensamentos masculinos. É certo que a “ogritude” dos homens deixa a entender uma falta de sensibilidade às vezes. Mas o mesmo pode ser observado no ego de muitas mulheres que, por medo de se ferirem, acabam se machucando bem mais por guardarem tudo só para elas.

Mas já que isto é um posfácio e não uma seção de psicanálise, como autor espero que tenham aproveitado a leitura, porque o mais importante que ter uma história é ter alguém para compartilhar a idéia. Por isso agradeço a todos que acompanharam este conto, mais uma pequena realização pessoal, feita através de tudo que aprendi até então.

Conto escrito em 26/11/2006

Anúncios

Written by Joel Minusculi

maio 21, 2007 às 1:58 am

Publicado em Conto, Literatura

2 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. eu vo ler agora. dai comento decentimente
    ;D

    Bruh

    maio 21, 2007 at 2:35 am

  2. hahahahhaha
    pera !
    vo fazer isso pra ve se vem algum gatao me salvar
    :p hahahahahah
    beeijos kerido :*

    Bruh

    maio 21, 2007 at 2:43 am


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s