REFÚGIO

comunicação, tecnologia e outros devaneios

A chamada da noite

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Assassino

Os ponteiros marcavam freneticamente os segundos no grande relógio redondo na parede da sala. Eram vinte e duas horas e dez minutos. Depois de um dia tão animador quanto um tratamento de canal, aquele cara estava jogado em sua poltrona azul-pastel de riscos pretos. De frente à tevê, a única coisa que esboçava alguma reação eram as retinas de seus olhos castanhos, quando a claridade da tela variava em meio à escuridão do ambiente.

Mesmo com o tempo livre, sua barba a fazer não era importante agora. Sob a luz tímida do abajur, na mesinha torneada ao lado dele, jazia um copo vazio de alguma coisa que ele não se lembrava mais. Ao lado deste, um celular azul-néon sem créditos e que não recebia uma ligação há muito tempo. Assim como o aparelho, o cara ultimamente não tinha uma ocupação.

Até que outro som, além do chiado mal sintonizado do receptor, invadiu o ambiente. O barulho estridente do toque do celular acordou o cara do transe televisivo. “Alô?”, a voz seca e masculina do outro lado da linha indagou. “Alô!”, respondeu o cara com a voz sonolenta. “Você é o cara que resolve vidas problemáticas?”, inquiriu a ligação. “Sou”, mais uma vez respondeu o cara, esfregando os olhos. “Preciso que você resolva um problema meu, que estará na praça do centro da cidade hoje, à meia-noite”, instruiu o primeiro da conversa.

Desconfiado, como sempre é, o cara usou de sua apurada lógica: “Mas ninguém vai à praça a essa hora!”. “Vai sim”, simplesmente ele ouviu da voz seca. “Como vou ser pago? Meu serviço é de qualidade e não é barato”, dessa vez indagou o cara. A voz do outro lado da linha silenciou por alguns instantes. Um sutil barulho de papeis agitados pôde ser ouvido pelo fone do cara. “O pagamento também estará na praça, com a pessoa que estará sozinha sentada no canteiro de margaridas mortas”, garantiu com voz firme e decidida do contratante.

E antes de qualquer outra pergunta, a ligação encerrou. Por longos segundos o cara observou o número no identificador do celular. Enquanto isso pensou se valia a pena trabalhar agora. Ele precisava de dinheiro. Olhou de canto de olho para a direção do pé da porta do seu apartamento. As contas forravam o chão como folhas em um jardim no outono. Infelizmente o cara se deu conta que teria que encarar a realidade e sair daquele mundo de fantasia da telinha.

***

Desligou a tevê. Guardou o celular no bolso da calça preta de moletom. O cara se levantou do sofá e foi até o armário de duas portas no quarto. Abriu e procurou seu equipamento de trabalho: a mochila esportiva, preta com detalhes azuis-claros na alça; uma de suas vinte e cinco camisetas brancas; o par de tênis All Star falsificado, sem aquele risquinho vermelho dos originais; sua touca azul-petróleo, estilo estivador; e seu sobretudo azul-marinho de três botões. Vestiu as roupas – deixo o sobretudo aberto – , calçou o tênis e colocou uma alça da mochila, que estava pesada, no ombro direito.

Deu alguns passos no meio da sala, em direção à saída. Bateu com a palma direita na testa, voltou para o batente da porta do quarto. Lá havia um prego enferrujado e torto na lateral direita, que sustentava um pequeno crucifixo prateado num cordão preto. Ajeitou a outra alça da mochila no ombro esquerdo e passou o cordel sagrado do prego para seu pescoço. Fez o sinal da cruz e apontou o indicador direito para o alto, onde havia uma rachadura. Agora estava pronto para ir.

Saiu e não trancou a porta, porque considerava não ter nada de valor dentro do apartamento. Desceu os três andares que separavam seu andar da rua a passos apressados. Quando chegou à calçada, um vento frio deu um golpe no seu sobretudo. Ele olhou para o céu, mas só o poste de luz amarela iluminava o alto. Segurou firme as alças em seus ombros e se pôs ao caminho do centro da cidade. Mesmo com o mais denso breu da noite, o cara poderia chegar lá de olhos fechados.

***

Quando chegou, olhou ao redor. A praça parecia uma arena. O calçadão era comprido, do mesmo tamanho de um campo de futebol. Era todo ladrilhado por pedras que formavam ondas brancas e pretas no chão. O espaço era aberto, pontilhado por algumas figueiras e, no centro, havia um canteiro de margaridas, mortas pela estiagem e a falta de consideração dos poderes públicos com a beleza. Vários prédios cercavam a área e suas janelas acesas na noite pareciam olhos que observavam o cara na praça.

O sobretudo azul-marinho se agitava com o vento. O cara escolheu o imóvel, mais baixo que havia, de cinco andares. Deu a volta na construção e ficou de frente à porta dos fundos. Abriu a mochila e tirou uma chave-mestra. Entrou sem problemas. Mesmo no beco escuro, era uma das trancas mais simples que já viu. Entrou e encostou a porta. Subiu os degraus rapidamente. Mais uma tranca, mais alguns rápidos movimentos de pulso e o habilidoso intruso estava no topo do edifício.

O lugar era amplo, com uma pequena mureta da altura do peito cercando o perímetro. O cara se dirigiu para o lado que dava de frente para a praça. Só um palmo de tijolos separava seu corpo do abismo de cimento. No calçadão nada além do vento percorria o espaço. A mão direita entrou no bolso da calça de moletom e pegou o celular. Os olhos castanhos perceberam no visor: vinte e três horas e cinqüenta e cinco minutos.

Uma garoa fina começou a cair do céu. E no mesmo instante que as primeiras gotas chegaram ao chão, uma figura surgiu na praça. Caminhou a passos arrastados para o centro e sentou na borda do canteiro das margaridas mortas. Era um rapaz com aparência de vinte anos. Uma camisa branca com uma águia preta espelhada no peito, sob um casaco esportivo preto de listras brancas aberto, calça jeans rasgada e um Nike original da moda. Corte de cabelo perfeito e penteado arrepiado. A chuva não parecia o incomodar. Tirou um papel do bolso da calça, desdobrou e se pôs a ler.

***

O cara no topo do prédio devolveu o celular para o bolso e observou atentamente os movimentos. Agachou-se e tirou algumas peças de sua mochila. A primeira de madeira torneada, parecido com um pequeno tacape. A segunda era um cano longo de metal cromado, com um mecanismo propulsão de agulha e um gatilho em uma das pontas, que se encaixou perfeitamente na madeira. Depois pegou uma luneta, que encaixou no topo central da peça anterior. Por fim, pegou um cilindro, mais largo que o cano, e rosqueou na extremidade contrária a que tinha a madeira. Enfiou a mão no fundo da mochila e pegou um objeto pontiagudo na cor do bronze, parecido com uma caneta. Abriu o ferrolho de seu rifle de precisão e carregou com o projétil perfurante.

A arma foi apoiada na mureta e o cara se debruçou sobre ela, como se deitasse num travesseiro macio. Engatilhou a alavanca do ferrolho. Alinhou o olho direito na mira, ajustou o foco e procurou o alvo. Correu a mira pelas ondas, até chegar ao canteiro central. Encontrou uma cabeça, que tinha os olhos baixos sobre um papel desdobrado. Viu um espaço entre os dois olhos, que eram azuis como os detalhes de sua mochila. O relógio do cara acusou meia-noite em ponto.

O gatilho foi puxado. A bala passou veloz e precisa pelo silenciador, atravessando o crânio da figura sentada na praça. Nenhum som, só sangue. Havia mais algo morto no canteiro além das margaridas. O vermelho intercalou as ondas alvinegras. A mão que puxou o gatilho fez o sinal da cruz e aponto para o alto. Agora o serviço estava feito. Era hora de pegar a recompensa da noite e voltar para casa.

***

O cara desmontou sua arma, colocou as peças de volta na mochila, foi para as escadas e trancou a porta da cobertura. Desceu os degraus rapidamente, chegou ao beco e fechou a passagem dos fundos do prédio. Foi a passos frenéticos em direção ao centro da praça. Ele sabia que tinha que ser rápido. Revistou o casaco no corpo desfalecido e logo encontrou a carteira com a quantia estipulada no telefonema.

Guardou o dinheiro num bolso e do outro pegou o celular. Uma mão procurava o número da última ligação recebida, para discar com o código de ligação à cobrar. A outra recolheu o papel das mãos frias no chão. Enquanto o aparelho completava a ligação e o sinal conectava, os olhos castanhos correram pelos manuscritos da folha. Era um traçado feminino e as palavras terminavam um relacionamento: “(…) Sua vida fútil não serve para a minha. Ou você sai dela, ou eu me afasto de você (…)”.

Outro golpe de vento agitou o sobretudo azul-marinho. A respiração do cara parou, enquanto estava de pé atônito lendo a carta. Parecia que segurava o próprio coração ao invés daquele papel. Desviou seus olhos castanhos para a face do morto. Percebeu que algo mais molhava aquele rosto, além da garoa e do sangue. Quando a ligação começou a chamar, um celular tocou no mesmo ritmo no bolso da calça jeans rasgada e ensangüentada. Um trovão riscou a noite e a garoa se tornou uma tempestade.

 

 

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Written by Joel Minusculi

maio 6, 2007 às 4:47 pm

Publicado em Conto, Literatura

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