Archive for the ‘Literatura’ Category
Atualização
Duelo de Escritores

Está rolando uma peleja bem criativa no Duelo de Escritores, com o tema Paranormalidade. Textos muito bons. Confira e vote no seu favorito.
“Há duas horas, Deus veio até mim e me deu plenos poderes. Eu exterminei as guerras, acabei com a miséria e com a fome, transformei escolas em verdadeiras fontes de conhecimento… enfim, toda aquela babaquice que toda Miss diz que sonha. Aí meus poderes acabaram. Faz duas horas que eu não tenho do que reclamar. Tô de saco cheio. Puta mundo chato”.
Texto de Marina Melz
Joel Minusculi
Que acha muito bom ter tempo e internet disponíveis.
Atualização – Gaveta do Autor
O ponto é o limite

Se me pedissem para definir a sociedade em uma metáfora, coisa que já seria um tanto quando redundante, eu diria que ela é como um ônibus, daqueles que tenho que pegar todos os dias. Não pelo caminho sempre certo que seguem ou a sua logística aplicada para distribuir certas pessoas em determinados lugares. Muito pelo contrário, pois é naquele ambiente de transição que está a base da vida em grupo.
Por começar na posição dos tripulantes. Há um motorista, que conduz a vida e toma as decisões por todos os outros naquele momento, mas, como avisa a placa, esta acessível somente para assuntos imprescindíveis, mais ou menos como os políticos. Tem também um cobrador, que representa as forças opressoras e de controle das massas, cobrando as passagens e bradando de seu trono privilegiado o “passinho pra frente”. Já os outros são meros passageiros.
A fauna usuária do serviço é o grupo mais interessante de ser observado. Como o perdido, que a cada ponto faz como aquelas crianças para o cobrador ou para o companheiro de banco, pedindo “tá chegando?”. Tem também a evangélica, que é aquela figura atarracada de saia, com um coque tão preso no cabelo que chega a saltar as órbitas dos olhos, que só mesmo com a graça de Deus consegue passar de ponta-a-ponta em um ônibus lotado.
E por falar em lotação, há momentos em que nem o pudor ou uma síndrome de claustrofobia conseguem espaço. O calor humano é denso no sentido mais olfativo da coisa, em que é relativo ao número de braços erguidos e o prazo de validade do desodorante dos mesmos. Ainda, se você não tiver a sorte de ir acomodado em um banco, seu corpo vai roçar a cada curva e parada em sinal, mais ou menos como uma lambada dançada por um epilético.
Para a boa convivência em grupo, há algumas regras que prezam o bem-estar: oferecer o lugar aos mais velhos, gestantes e deficientes; não pagar passagem com notas maiores do que dez reais, para agilizar o troco; e, um dos mais importantes, ser paciente e resistente como uma rocha, para levar bolsadas, cotoveladas, bundadas e outros golpes involuntários.
O tempo que você precisa ficar dentro de um ônibus pode ser muito curioso e até mesmo útil, mesmo que a trilha sonora seja aquele pancadão que leve seu humor ao nocaute. Lá você conhece os mais célebres dramas anônimos, do amigo do amigo da vizinha de fulano, ou aprende aquele plano mirabolante de economizar no orçamento doméstico pegando papel higiênico da faculdade.
Tudo isso são coisas tão interessantes quanto a novela das oito. É só a maioria que não presta muito bem a atenção. Eu não sei até que ponto as pessoas querem chegar. Tudo o que sei é que eu devo saber muito bem até onde vou, para que no caminho eu não interfira no dos outros. Afinal, a vida social não é uma mera viagem nesse caso.
Joel Minusculi
Que pega ônibus todo santo dia
A fábula do cotidiano rotineiro
Crônica inspirada na música Valsinha, de Chico Buarque. Baseada em como as pessoas se deixam levar por uma rotina e esquecem de ver o resto do mundo.
A maioria dos finais nos contos de fadas sentencia que as pessoas vivem felizes para sempre. Precisam passar por trabalhos e desafios, para provar o mérito da alegria. Uma bela lição passada para as crianças que, infelizmente, crescem e deixam esse a assunto para as próximas gerações. Tudo culpa de uma tal responsabilidades com “coisas de gente grande”, que dilui a sensibilidade na preocupação com os afazeres cotidianos.
A rotina, que sufoca nossas vontades, sistematiza tudo no dia. A gente acorda pensando no final do dia, das atividades no meio tempo, para daí lembrar daquele compromisso, para correr para não se atrasar e, se sobrar um tempo, parar na frente do espelho e conseguir perceber que está na hora de dar um trato na aparência. De tanta coisa, mal sobra tempo para a gente mesmo, quem dirá para as pessoas ao nosso redor.
Se a vida for esquematizada como no um mais um, ela vai ser tão empolgante como uma aula de matemática aplicada. Para combater isso vale até aqueles conselhos clássicos, como fazer ou aprender uma coisa nova por dia. Porém, a resposta não está em só seguir fórmulas, mas sim fazer da sua própria maneira.
Não adianta só acreditar que vai encontrar um pote de ouro no final do arco-íris, ou que vai um príncipe em um cavalo branco vai te levar para longe, é preciso agir. E não importa aquilo que os outros pensam, se o isso que você faz traz sua felicidade sem interferir na dos outros.
Mas se você acha tudo isso uma fantasia como dos contos de crianças, tomara que sobre um espaço em sua agenda para as consultas ao cardiologista que estão por vir. Pense bem, aproveite os bons momentos, para que sua vida não se torne uma moral de história daquelas que as crianças não gostam de ouvir.
Joel Minusculi
Que está enferrujado em escrever crônicas
Quando nasce o sol

Naquela manhã, o sol levantou mais cedo: o galo estava com insônia. Não que houvesse algum motivo astronômico que alterasse a órbita do sistema planetário. Muito menos que a ave tenor estivesse com olheiras profundas e um cantar debilitado. Mas essa era a impressão de Marcos, quando o cocoricar de Astolfo, o galo, começou a retumbar dentro da sua cabeça.
Triângulo amoroso

Dentre os personagens mais famosos do carnaval estão Pierrôt, Columbina e Arlequim. Estes são inspiração tanto para fantasias, como para canções que fazem referência a uma triste história de triângulo amoroso. O que pouca gente sabe é como se deu o acontecido. Uma das versões mais famosas do conto é uma encenada nos antigos teatros itinerantes da Europa, a chamada Commedia dell’Arte. Abaixo, a versão segundo Pierrot ou lês secrets de la nuit, de Michel Tournier.
Pierrôt e Colombina cresceram juntos e eram muito amigos. Pierrôt se tornou padeiro e fazia pães e doces para alegrar a vida dos habitantes de sua cidadezinha e o coração de sua amada. Ele não tinha coragem de se declarar para Colombina, pois ele era muito tímido. Costumava escrever longas cartas de amor para sua amada, porém não tinha coragem de enviá-las.
Um belo dia de verão aparece na cidade um alegre trovador chamado Arlequim, que encanta a todos com suas histórias e canções. Colombina é seduzida e se apaixona por ele. Ela o segue deixando sua cidade e seu amigo Pierrôt, que fica muito triste e deprimido.
Chega o inverno e com ele dificuldades para a sobrevivência, Arlequim e Colombina sofrem muito. Em uma noite de inverno, ao contemplar a lua, a moça relembra seu amigo Pierrôt e encontra uma carta com uma declaração de amor. Ela fica emocionada e foge para retornar para sua pequena cidade e rever Pierrôt.
Os dois amigos se reencontram e vivem muito felizes juntos. Arlequim, com saudades de Colombina, também retorna e para permanecer perto de sua amada fica amigo de Pierrôt. Assim os três amigos vivem felizes para sempre em meio aos pães e doces deliciosos feitos por Pierrôt.
Sobre os personagens:
Colombina - jovem ingênua que fica entre a emoção de Arlequim ou a serenidade de Pierrôt.
Pierrôt - é o amor puro e verdadeiro que sabe esperar o retorno de sua amada. O amor sofre em silêncio
Arlequim - é a paixão que chega repentinamente e arraza corações. A paixão é passageira e perde seu encanto quando os problemas de relacionamento chegam.
Abaixo, o trecho final da peça, que até pode ser interpretado como funciona o desejo feminino (que muitos homens “pierrôts” quebram a cabeça para entender, enquanto muitos “arlequins” se aproveitam da situação).
“Não! não me compreendeis…
Ouvi, atentos, pois meu amor se compõe do amor dos dois.
Hesitante entre vós, o coração balanço, o teu beijo é tão doce, Arlequim… o teu sonho é tão manso, Pierrot…
Pudesse eu repartir-me e encontrar minha calma dando a Arlequim meu corpo…e a Pierrot, minha alma!
Quando tenho Arlequim, quero Pierrot tristonho pois um dá-me prazer, outro dá-me o sonho!
Nessa duplicidade o amor todo se encerra um me fala do céu… outro me fala da terra!
Eu amo, porque amar é variar e, em verdade, toda a razão do amor está na variedade…
Penso que morreria o desejo da gente se Arlequim e Pierrot fossem um ser sómente.
Porque a história do amor só pode se escrever assim um sonho de Pierrot e um beijo de Arlequim!”.
Joel Minusculi
Que sente pena do Pierrôt.
Noite dos Pesadelos – Parte 1

Por Deus, como minha cabeça dói. Os cobertores da cama me sufocam e o travesseiro parece feito de pedra. Mais uma madrugada de insônia, como acontece nas últimas duas semanas. Espere um pouco, meu quarto não é tão bem iluminado assim pela noite. As paredes estão sujas e avermelhadas. Minha cabeça. Preciso de um analgésico e um copo de água.
Levantar é a pior parte quando parece que a gravidade não colabora com sua vontade. Tudo está girando. Nem parece ser o meu quarto. Aliás, esse não é o meu quarto, mas é tudo tão familiar ao mesmo tempo. A escrivaninha, a pilha de papéis sobre ela, as duas janelas nas paredes, o armário ao lado da cama. Preciso urgentemente do analgésico ou de um sanatório. A caixa de remédios no banheiro é a mais próxima no momento.
O corredor também está com as paredes no mesmo estado do quarto. Se bem que minha visão está turva e, no momento, meus olhos não são confiáveis. O banheiro é aqui na frente. Mas por que esta maldita porta não quer abrir? Sorte dela que só tenho forças para andar, se não a poria a baixo. Sede. Preciso de água. E também de um analgésico. Maldita porta!
Pelo que eu lembre, eu lavei minha louça do jantar. Quem é que foi que sujou as paredes desse jeito? E a sala? Está pior que a cozinha… Alguém deixou a televisão ligada. Mas eu moro sozinho. Os livros na estante estão bagunçados. Esses quadros… eu tenho quadros, mas não estes. Minha cabeça… parece que tem uma fanfarra fora do ritmo dentro dela. A sujeira nas paredes está se movendo? Essa maldita dor que corrói o meu cérebro.
E esse cheiro metálico e forte. É de sangue! Onde? A parede, ela está ficando escura. As sombras da penumbra estão indo para a mesma direção. Ah, minha cabeça! Uma massa está saindo da parede. Ela parece… parece com uma… pessoa!? Está tudo girando. Essa figura que está saindo da parede… tão pálida, tão suja, tão… assustadora! Não agüento mais. Minha consciência não me obedece mais. Está tudo escuro, mas pelo menos a dor de cabeça parou.
Joel Minusculi
Que odeia noites de insônia
O ponto é o limite

Se me pedissem para definir a sociedade em uma metáfora, coisa que já seria um tanto quando redundante, eu diria que ela é como um ônibus, daqueles que tenho que pegar todos os dias. Não pelo caminho sempre certo que seguem ou a sua logística aplicada para distribuir certas pessoas em determinados lugares. Muito pelo contrário, pois é naquele ambiente de transição que está a base da vida em grupo.
Por começar na posição dos tripulantes. Há um motorista, que conduz a vida e toma as decisões por todos os outros naquele momento, mas, como avisa a placa, esta acessível somente para assuntos imprescindíveis, mais ou menos como os políticos. Tem também um cobrador, que representa as forças opressoras e de controle das massas, cobrando as passagens e bradando de seu trono privilegiado o “passinho pra frente”. Já os outros são meros passageiros.
A fauna usuária do serviço é o grupo mais interessante de ser observado. Como o perdido, que a cada ponto faz como aquelas crianças para o cobrador ou para o companheiro de banco, pedindo “tá chegando?”. Tem também a evangélica, que é aquela figura atarracada de saia, com um coque tão preso no cabelo que chega a saltar as órbitas dos olhos, que só mesmo com a graça de Deus consegue passar de ponta-a-ponta em um ônibus lotado.
E por falar em lotação, há momentos em que nem o pudor ou uma síndrome de claustrofobia conseguem espaço. O calor humano é denso no sentido mais olfativo da coisa, em que é relativo ao número de braços erguidos e o prazo de validade do desodorante dos mesmos. Ainda, se você não tiver a sorte de ir acomodado em um banco, seu corpo vai roçar a cada curva e parada em sinal, mais ou menos como uma lambada dançada por um epilético.
Para a boa convivência em grupo, há algumas regras que prezam o bem-estar: oferecer o lugar aos mais velhos, gestantes e deficientes; não pagar passagem com notas maiores do que dez reais, para agilizar o troco; e, um dos mais importantes, ser paciente e resistente como uma rocha, para levar bolsadas, cotoveladas, bundadas e outros golpes involuntários.
O tempo que você precisa ficar dentro de um ônibus pode ser muito curioso e até mesmo útil, mesmo que a trilha sonora seja aquele pancadão que leve seu humor ao nocaute. Lá você conhece os mais célebres dramas anônimos, do amigo do amigo da vizinha de fulano, ou aprende aquele plano mirabolante de economizar no orçamento doméstico pegando papel higiênico da faculdade.
Tudo isso são coisas tão interessantes quanto a novela das oito. É só a maioria que não presta muito bem a atenção. Eu não sei até que ponto as pessoas querem chegar. Tudo o que sei é que eu devo saber muito bem até onde vou, para que no caminho eu não interfira no dos outros. Afinal, a vida social não é uma mera viagem nesse caso.
Joel Minusculi
Que pega ônibus todo santo dia
Difícil é não chorar

Lá estava eu novamente, aquilo precisava ser feito. A prática já havia se tornado uma rotina – ingrata para alguns e necessária para o bom desenvolvimento das coisas, segundo outros. Enquanto isso, ela estava lá também, quieta em seu canto, junto a outras e sem imaginar seu destino. Aliás, acredito que nada passava por sua cabeça naquele momento.
Mesmo se meu olhar estivesse desatento, não seria difícil perceber que ela era a melhor entre todas. Ela refletia a luz de uma maneira única, em tons acobreados, puxando para o vermelho, como se estivesse vestida por uma camada de rubi. Com tantos odores naquele ambiente, variando do doce ao salgado, seu cheiro se destacava, em uma impressão forte e marcante.
Houve a precipitação e minha mão esquerda foi sem titubear em sua direção. A escolha estava feita, hoje seria ela. Sem dúvida. Nesse mesmo instante, a mão direta agarrou firme a faca que estava no balcão. Não sei muito bem porque fiz, mas no momento em que senti firme o cabo em minha mão, girei como se fosse uma baqueta.
Os movimentos, ao mesmo tempo em que pareciam involuntários, foram precisos. Minha mão esquerda sentiu sua textura firme e lisa, sem nenhuma imperfeição. Recostei aquela cabeça sobre o balcão, com cuidado. Ela não esboçava reação. Eu estava indiferente. Tudo seguia dentro do esperado para a situação.
Dois golpes rápidos. Um no topo e outro na base da cabeça. Comecei a escalpelar com os dedos, na brutalidade de quem é indiferente com os meios. Agora ela estava desnuda e pálida, bem ali, na minha frente. Respirei fundo, pois os próximos movimentos eram os piores. Mais um golpe, que dividiu a cabeça em duas partes. Senti dificuldade em fazer a lâmina atravessar tantas camadas.
A mão direita não largou a faca. A esquerda foi para uma gaveta, em busca de um aço de amolar. As duas ficaram munidas das ferramentas certas para o que era necessário. Faca e aço se encontraram como amantes há muito tempo sem se ver. Roçaram seus corpos como em uma dança alucinada, em movimentos frenéticos e gemidos metálicos.
Por Deus! Não sou um açougueiro, pensei. Larguei o aço e fui conferir o resultado na lâmina. Passei o dedão esquerdo pelo fio de ferro, que me marcou com um fio de sangue. Levei o dedo à boca, quando senti o sabor do sangue temperado com o gosto dela. Ela!
Foi o mesmo com as duas partes da cabeça: picadas nas menores partes possíveis, com cortes horizontais e verticais. A cada golpe seu cheiro era mais intenso. Eu precisava ser rápido, meus olhos estavam prestes a transbordar. Continuei até ter certeza que estava bem feito.
Joguei rapidamente na panela com um fio de óleo. Ela, mesmo em pedaços, deu seu último suspiro chiado. Estava feito. Uma lagrima rolou em meu rosto. Mas a cebola picada era só o primeiro ingrediente para o molho da macarronada. Respirei fundo e me recompus. Agora, onde está o alho?
Joel Minusculi
Que aprecia o ritual do preparo dos alimentos









